Por Stella Ferrari — A Corte Suprema dos Estados Unidos declarou ilegais as amplas tarifas de Trump impostas sob a lei de emergência económica (IEEPA), afirmando que o presidente excedeu sua autoridade ao utilizar esse instrumento para instituir um regime tarifário que abrangeu praticamente todos os parceiros comerciais dos EUA.
Em uma decisão da maioria conservadora, votada por seis a três, o tribunal concluiu que a IEEPA “não autoriza o presidente a impor tarifas” gerais. A Corte destacou que, caso o Congresso pretendesse conferir ao Executivo um poder tão extraordinário para tributar o comércio internacional, o faria de forma explícita, como ocorreu em estatutos tarifários anteriores.
O veredito reforça decisões anteriores de instâncias inferiores que já haviam considerado ilegais as tarifas generalizadas estabelecidas por Trump no primeiro ano de seu segundo mandato. Um tribunal de grau inferior, em maio, havia bloqueado a maior parte dessas medidas, mas a suspensão da decisão aguardava o julgamento do recurso apresentado pelo governo até o pronunciamento final da Suprema Corte.
Importante ressaltar que a sentença não afeta as tarifas setoriais previamente impostas separadamente sobre aço, alumínio e outros bens específicos. Essas alíquotas continuam sujeitas a enquadramentos legais distintos e, por ora, não foram revertidas pelo tribunal.
Em reação imediata, o próprio presidente Trump qualificou a decisão de “uma vergonha” durante um encontro matinal com governadores na Casa Branca, segundo reportagem da CNN, e afirmou dispor de um “plano de reserva”. A administração ainda deverá esclarecer quais medidas executivas ou legislativas pretende adotar em sequência.
Do lado externo, a Comissão Europeia reagiu oficialmente. O porta-voz para Comércio, Olof Gill, declarou: “Tomamos nota da sentença da Corte Suprema e a estamos analisando atentamente. Mantemos diálogo estreito com a administração dos EUA para entender as implicações e as medidas subsequentes.” Gill ressaltou que empresas dos dois lados do Atlântico dependem da estabilidade e previsibilidade nas relações comerciais e reiterou o apoio da União Europeia a tarifas aduaneiras baixas.
Como estrategista de mercados, interpreto essa decisão como uma recalibragem institucional — um ajuste no motor da economia global que corrige uma ação executiva que tentou alterar, de forma abrupta, o desenho das políticas comerciais. A Corte restabeleceu um princípio de separação de poderes: a tributação ampla do comércio internacional exige mandato claro do Legislativo, não apenas a alavanca de emergência do Executivo.
Para investidores e empresas, a mensagem é dupla: por um lado, alivia a incerteza de curto prazo sobre tarifas generalizadas; por outro, mantém viva a possibilidade de medidas setoriais específicas e de novas manobras políticas. Em termos de risco-país e previsibilidade de mercado, trata-se de uma desaceleração nos ruídos — uma calibragem que, embora técnica, tem impacto direto na performance das cadeias de valor e no custo do comércio.
Seguirei acompanhando a resposta da administração americana e os desdobramentos legislativos que poderão surgir. A economia, como um motor de alta performance, exige manutenção constante: decisões judiciais como esta funcionam como uma revisão de componentes, evitando que políticas mal ajustadas provoquem desgastes sistêmicos.






















