Por Stella Ferrari — As primeiras reações dos mercados ao novo capítulo da guerra no Médio Oriente já se traduzem numa clara corrida aos bens-refúgio. Na sessão seguinte aos ataques contra o Irã, o Brent, referência internacional para o petróleo, subiu até 13%, atingindo US$ 82,37 por barril, antes de ceder parte dos ganhos e fechar em alta de cerca de 7% em Londres.
O cerne do impacto é o estreito de passagem estratégica: o Estreito de Hormuz, por onde transita cerca de um quinto do petróleo e do gás global. A atividade na via marítima sofreu um forte abrandamento e chegou a ficar quase parada após os ataques, enquanto as retaliações de Teerã contra países do Golfo aumentam o risco sobre infraestruturas essenciais ao mercado energético mundial.
Norbert Rucker, responsável econômico do Julius Baer, destacou ao Financial Times que “as implicações para a economia global dependem do fluxo de petróleo e gás através do Estreito de Hormuz”. O cenário mais temido não é apenas uma interrupção temporária, mas o dano severo às infraestruturas-chave de produção e transporte.
O ouro também se beneficiou do movimento de busca por segurança: as cotações avançaram cerca de 1,6%, na casa dos US$ 5.362 por onça. O dólar, por sua vez, registrou valorização de aproximadamente 0,4% ante uma cesta das principais moedas, refletindo o apetite por ativos considerados refúgio.
Nos mercados acionários, os futuros de Wall Street mostraram queda, enquanto a Ásia registrou perdas com o índice Topix do Japão recuando cerca de 1,5% e o Hang Seng de Hong Kong em torno de 1,4%.
No front do petróleo na Ásia, os preços avançaram mais de 6%, com o Brent próximo de US$ 78 por barril após o salto inicial além de US$ 82. A situação operacional em Hormuz já foi afetada não apenas por decisões de prevenção, mas também por medidas do setor segurador: seguradoras anunciaram cancelamento de apólices e aumento de prêmios, e consultorias de segurança marítima aconselharam clientes a evitarem o estreito por pelo menos 24 horas, diante da incerteza.
Jakob Larsen, chefe de segurança marítima da Bimco, descreveu a postura do mercado como “uma estratégia de espera” pela falta de precedentes recentes que permitam calibrar com segurança a evolução dos preços. Analistas da Energy Aspects igualmente apontaram dificuldades de projeção, enquanto alguns traders, citados por John Kemp do FT, parecem atribuir apenas uma probabilidade modesta a uma disrupção profunda nas cadeias do petróleo — lembrando que durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em junho de 2025 o Brent subiu rapidamente acima dos US$ 80 e retrocedeu aos níveis anteriores em cerca de duas semanas.
No entanto, como estrategista, observo que a atual escalada é qualitativamente diferente: a intensificação do conflito após a morte de Ali K. mudou a dinâmica e aumentou a assimetria de riscos. Num sistema financeiro cujo motor da economia depende de fluxos energéticos estáveis, a calibragem de políticas e a resposta dos mercados financeiros serão cruciais para determinar se a atual onda permanecerá um pico temporário ou se se traduzirá numa nova fase de volatilidade sustentada.
Para investidores e gestores, a lição imediata é clara: manter disciplina na gestão do risco e evitar decisões precipitadas. O cenário exige performance e precisão — como em um motor de alta performance, pequenas variáveis podem provocar oscilações significativas no output. Acompanhar sinais de infraestruturas afetadas, comunicar-se com contrapartes seguradoras e revisar proteções cambiais e de commodities são medidas pragmáticas e necessárias nesta fase.






















