Por Stella Ferrari — A concentração de riqueza entre os super-ricos atingiu um nível recorde em 2025, um fenômeno que, segundo a ONG Oxfam, representa uma ameaça direta à liberdade política e intensifica a desigualdade global. O alerta foi lançado às vésperas do encontro anual de líderes e investidores em Davos, palco onde se cruzam interesses econômicos e decisões que moldam mercados e políticas.
O relatório da Oxfam revela que os 12 indivíduos mais ricos do planeta detêm mais riqueza do que a metade mais pobre da população mundial — cerca de quatro bilhões de pessoas. Em 2025, pela primeira vez, havia mais de 3.000 bilionários no mundo, com um patrimônio agregado estimado em US$ 18,3 trilhões. Esse estoque de riqueza cresceu 16,2% no último ano, taxa aproximadamente três vezes superior à média dos cinco anos anteriores, enquanto a redução da pobreza desacelerou desde a pandemia de 2020.
Do ponto de vista institucional, esse acúmulo permite aos super-ricos acesso privilegiado a instituições e influência sobre meios de comunicação, uma combinação que, na visão da ONG, mina mecanismos democráticos e corrói direitos da maioria. O documento aponta que os mais ricos têm cerca de 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar cargos políticos em comparação com cidadãos comuns — um indicador chocante da assimetria de poder.
Os Estados Unidos são citados como exemplo emblemático: administrações recentes passaram a incluir vários bilionários em cargos centrais, o que, segundo o relatório, contribuiu para políticas que favoreceram os interesses concentrados do capital. Com a aproximação das eleições intermediárias nos EUA, em novembro, a expectativa é de anúncios de cortes fiscais substanciais para empresas e famílias, ao mesmo tempo em que multinacionais americanas conquistaram exceções em relação ao imposto mínimo global de 15% previsto por acordos internacionais.
Em Davos, a desigualdade e a influência dos muito ricos também foram alvo de protestos. Manifestantes organizados pela Juventude Socialista Suíça exibiram cartazes e máscaras de figuras como Elon Musk, o chanceler alemão Friedrich Merz e o vice‑presidente norte‑americano J.D. Vance, enquanto seguravam cédulas gigantes recortadas. Nathalie Ruoss, vice‑presidente da Juventude Socialista presente nas manifestações, criticou o Fórum de Davos por reunir “as pessoas mais poderosas e ricas do mundo para decidir sobre nosso futuro sem legitimidade democrática”.
Para Amitabh Behar, diretor executivo da Oxfam, existe um círculo vicioso: as medidas que ampliam a concentração de renda aceleram a erosão de direitos e segurança, reduzindo a capacidade das sociedades de se protegerem contra novos choques. Em linguagem de engenharia econômica, vemos um motor da economia sendo calibrado para beneficiar poucos pistões — uma acelerada seletiva que reduz o atrito social.
Do ponto de vista estratégico, a mensagem da Oxfam é clara: sem correções de política — maior progressividade tributária, limites à influência midiática e regras que preservem a integridade das instituições — a dinâmica atual pode transformar vantagens econômicas em poder político duradouro, tornando mais difícil reorientar a economia em favor do interesse público.
Como economista com foco em desenvolvimento e alta performance, enxergo nessa concentração um desafio de design de políticas: é preciso calibrar instrumentos fiscais e regulatórios para restaurar equilibradores democráticos — os “freios fiscais” e a correta calibragem de juros e incentivos — que garantam competição leal e espaço público plural. Sem essa intervenção, a aceleração de tendências observada em 2025 tende a consolidar uma ordem que privilegia riqueza em detrimento da liberdade política.
Davos prossegue até 23 de janeiro, e o debate sobre quem influencia as decisões econômicas do planeta continua a mover o centro das atenções globais.





















