Por Stella Ferrari — A autoridade chinesa responsável pela indústria automotiva impôs uma mudança que tem potencial de recalibrar a aceleração do design em veículos elétricos: a partir do próximo ano, as montadoras serão obrigadas a equipar carros com **maçanetas retráteis** por alternativas que possam ser acionadas mecanicamente, mesmo em caso de colisão ou perda de energia.
O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT) da China comunicou que as novas regras exigem a presença de mecanismos de abertura tanto externos quanto internos que funcionem por acionamento mecânico, além de definir posicionamento obrigatório dessas alças e a instalação de um sinal indicativo próximo ao dispositivo interno. Segundo fontes como o Wall Street Journal, o objetivo declarado é elevar o padrão de segurança automobilística no país.
As **maçanetas retráteis** se popularizaram precisamente entre veículos elétricos que buscam ganhos de eficiência: ao reduzir a resistência aerodinâmica, ajudam a melhorar autonomia — um refinamento de design quase como afinar o motor de um sedã de alta performance. No entanto, relatos de consumidores e dados de qualidade trazem um contraponto prático. A J.D. Power apontou aumento de reclamações: em 2024, houve 3,1 problemas por 100 veículos relacionados ao uso das maçanetas, contra 0,2 em 2020.
O crescimento do fenômeno é relevante: cerca de metade dos carros novos vendidos na China são elétricos ou híbridos plug-in, tornando o impacto regulatório tanto técnico quanto econômico. Montadoras globais e chinesas — incluindo veículos da Tesla e de outros fabricantes locais — possuem modelos com o dispositivo. Nos Estados Unidos, questões semelhantes já atraíram a atenção de reguladores: a NHTSA abriu investigação sobre o sistema de abertura mecânica da Tesla Model 3 2022 por dificuldade de acesso em situações de emergência.
A mudança chinesa se seguiu a incidentes graves. Em outubro, um acidente envolvendo uma Xiaomi SU7 Ultra deixou ao menos um passageiro preso porque a porta não conseguiu ser aberta, conforme reportagens estatais; o modelo possui maçanetas retráteis. A Xiaomi ainda não respondeu publicamente a questionamentos sobre o episódio. Casos assim reforçam a leitura do regulador: a inovação não pode comprometer a capacidade de evacuação em situações críticas.
Para a indústria, trata-se de uma calibragem de políticas que impacta projeto, cadeia de suprimentos e o posicionamento de produtos. Montadoras argumentam que muitas portas já contam com um sistema de abertura elétrica e com uma alternativa mecânica, porém a China passa a exigir maior clareza sobre acessibilidade e sinalização dessas funcionalidades para o usuário final.
Em termos de mercado e estratégia, a decisão acelera um reajuste de desenho industrial sem freios: será preciso conciliar os ganhos aerodinâmicos com a redundância mecânica exigida pelo regulador. Fabricantes terão que redesenhar componentes, adaptar linhas de montagem e revisar manuais — custos e prazos que reverberam na cadeia e, eventualmente, no preço ao consumidor.
Como economista e estrategista, vejo a medida como um passo técnico, porém crucial, no equilíbrio entre inovação e proteção ao consumidor. A China não apenas ajusta um componente de carroceria; ela redefine parâmetros operacionais que têm efeito direto sobre percepção de risco, seguros e regulamentação internacional. É a engenharia de ponta encontrando os limites do design, e o resultado será uma nova linha de produção mais robusta para a próxima geração de veículos elétricos.






















