Por Stella Ferrari — O termo bullying econômico descreve a prática pela qual um país ou ator econômico utiliza sua superioridade financeira e política para impor condições desfavoráveis a outros. A expressão, um calque do inglês “economic bullying”, já circula em ambientes diplomáticos e midiáticos e vem ganhando papel central no debate sobre protecionismo e regras multilaterais de comércio.
Segundo a linguista Valeria Della Valle, co-diretora dos dicionários Treccani, “é uma expressão ricalcada dall’inglese economic bullying” e foi lançada inicialmente em ambientes políticos e diplomáticos chineses para criticar políticas comerciais dos Estados Unidos. Em sentido técnico, a expressão indica “a ação de sobrepressão exercida por um Estado com o intento de impor condições econômicas desfavoráveis a outros”. Essa definição ajuda a distinguir medidas legítimas de defesa comercial de práticas que visam a coerção política disfarçada de segurança econômica.
Historicamente, parte do uso do conceito remete aos chamados tratados desiguais do século XIX e início do século XX, quando impérios asiáticos — como a dinastia Qing, o Japão Tokugawa e a Coreia Joseon — foram obrigados a aceitar convenções que favoreciam potências ocidentais, num contexto de grande desequilíbrio tecnológico e militar. Aquela experiência gerou uma memória coletiva que hoje reemerge no vocabulário diplomático para denunciar mecanismos contemporâneos de pressão econômica.
Foi exatamente em resposta a medidas norte-americanas que autoridades chinesas passaram a empregar o conceito para qualificar práticas que entendem como coercitivas. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Zhao Lijian, afirmou que Pequim se opõe ao “abuso do recurso à segurança nacional por parte dos Estados Unidos e à opressão irracional de empresas específicas em outros países” — uma crítica direta ao uso de sanções, restrições tecnológicas e vetos que têm caráter extraterritorial.
O termo ampliou seu sentido: deixou de ser apenas uma acusação dirigida a políticas específicas e passou a significar, de modo mais geral, qualquer atitude prepotente sustentada pela supremacia econômica. Não é por acaso que a discussão sobre tarifas e contramedidas tarifárias orbitam o mesmo núcleo conceitual: ambos são respostas a choques de poder econômico e político.
Do ponto de vista institucional, essa narrativa questiona a autoridade e a eficácia da Organização Mundial do Comércio (OMC / WTO). O risco é que o unilateralismo protecionista funcione como freio à cooperação multilateral — e, ao mesmo tempo, como catalisador de reações defensivas que tensionam cadeias de valor e investimentos. Em termos de política econômica, é necessária uma calibragem fina: rédeas e freios fiscais mal concebidos podem comprometer o motor da economia global e criar distorções duradouras.
Como estrategista, minha leitura sintetiza em duas linhas: primeiro, o uso do conceito revela tanto uma circularidade retórica quanto um conflito real sobre normas e soberania econômica; segundo, a resposta eficiente passa por instrumentos multilaterais renovados, e não por medidas ad hoc que acelerem a fragmentação dos mercados. Em linguagem de engenharia, requer-se uma recalibração das regras e dos instrumentos — não um endurecimento puramente reativo que opere como um impacto de alta velocidade nas relações comerciais.
Mesmo que a expressão venha a cair em desuso no futuro, ela já deixou um registro linguístico, histórico e social relevante: funciona como termômetro das tensões entre potências e como testemunho das estratégias de poder aplicadas na arena econômica global.






















