Por Stella Ferrari — O motor da economia tecnológica deu solavancos nas primeiras semanas do ano. A bolha da IA estaria começando a estourar? Desde o início do ano, o setor de tecnologia registra volatilidade significativa nos mercados globais, com avaliações extraordinárias sendo questionadas e a rentabilidade dos investimentos em Inteligência Artificial sob escrutínio.
O índice Nasdaq, referência das grandes empresas de tecnologia dos EUA, acumulou uma queda superior a 2,50% desde o início da semana, mesmo após um rali técnico ontem de +2,18%. Resultados trimestrais recentes de gigantes como Amazon, Alphabet e Microsoft foram recebidos com frieza pelo mercado, apagando centenas de bilhões de dólares em valor de mercado.
Um gatilho desta semana foi o anúncio, na terça-feira, da start-up Anthropic — responsável pelo agente conversacional Claude — que lançou uma ferramenta de inteligência artificial capaz de executar tarefas jurídicas e de pesquisa. Essa inovação ameaça diretamente o modelo econômico de softwares profissionais e os fluxos de receita desses nichos.
As ações dos provedores e editores desses softwares despencaram tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. “Os mercados começaram a precificar a capacidade da IA de ameaçar modelos econômicos, com um custo social significativo”, observa Cyrille Collet, diretor de gestão quantitativa de ações do grupo Cpram. Nos dias seguintes, observou-se um contágio para o restante do setor tecnológico.
“Muitos investidores preferiram descartar o bebê junto com a água suja”, analisa Kevin Thozet, membro do comitê de investimento da Carmignac, em comentário à AFP. Esse comportamento soma-se às preocupações crescentes sobre a capacidade dos gigantes de transformar em lucro os volumosos investimentos em IA, financiados cada vez mais por endividamento em vez da liquidez que antes cobria os custos.
O quadro agrava riscos sistêmicos: se uma das grandes vacilar, o efeito dominó pode comprometer segmentos correlacionados. O fundo Bespoke sintetiza o aumento: há um ano esperava-se que Amazon, Google e Microsoft investissem 244 bilhões de dólares; hoje, essa projeção sobe para 494 bilhões. Não surpreende que o mercado resista a financiar tal escala de desembolsos.
Além disso, existem limitações físicas e de infraestrutura: “Haverá eletricidade suficiente para data centers e disponibilidade de chips?”, questiona Vincent Juvyns, analista do ING. Esses são aspectos de design de políticas e logística que muitas vezes ficam fora do radar financeiro, mas que atuam como freios físicos à expansão acelerada.
O saldo desde o início do ano é de perdas acentuadas entre os chamados “setes magníficos”: as ações da Microsoft caem aproximadamente 20%, Amazon 15% e Alphabet 12%. Paralelamente, decisões políticas, como a agenda de Donald Trump, ampliam a incerteza geopolítica, monetária — em contexto de dólar em queda nos últimos meses — e econômica, incentivando realocações regionais do capital. Desde o começo de fevereiro, índices europeus como o CAC 40 e o FTSE 100 registram alta modesta superior a 1%.
Como estrategista, enxergo este momento como uma calibragem necessária: o mercado está reavaliando velocidade e rota — é uma recalibração do acelerador, não necessariamente o fim da viagem. Investidores institucionais e gestores de risco terão de reavaliar modelos de lucro, estrutura de capital e resiliência operacional num ambiente onde a IA muda não só produtos, mas também o próprio mapa de valor das empresas.





















