Por Stella Ferrari — O Bitcoin rompeu a barreira dos US$70.000 e entrou em uma nova fase de fraqueza. Na última semana a principal criptomoeda registrou uma queda próxima de 8%, alcançando mínima em US$69.858 — uma perda de 3,8% desde novembro de 2024, data em que Donald Trump venceu as eleições presidenciais nos Estados Unidos.
O movimento piora um desempenho já negativo no início do ano: desde janeiro, as perdas acumuladas do Bitcoin beiram os 20%. Paralelamente, o Ether também sofreu, recuando cerca de 2% para aproximadamente US$2.090 e registrando uma queda anual próxima de 30%.
Do ponto de vista macro, analistas atribuem a deterioração recente à nomeação de Kevin Warsh como futuro presidente da Federal Reserve. A indicação elevou as expectativas de uma calibragem mais rígida da política monetária, incluindo uma possível redução do balanço da Fed — um fator que historicamente funciona como freios para ativos de maior risco e especulativos, como as criptomoedas.
“O mercado teme que com ele venha um perfil mais hawkish”, comenta Manuel Villegas Franceschi, do Julius Baer. Em termos de metáfora técnica, a nomeação alterou a calibragem de juros e cortou parte do combustível que vinha atuando como motor de aceleração para o setor cripto.
Além do pano de fundo macro, episódios corporativos também influenciam as oscilações. Relatos indicam que o grupo Trump Media (TMTG) passou a incorporar posições em Bitcoin, com cifras divulgadas próximas de US$870 milhões em criptomoedas e reservas que superariam os US$2 bilhões no conglomerado. Fontes e reportagens levantaram suspeitas de possível insider trading relacionado ao colapso ocorrido em 10 de outubro, ampliando a percepção de risco jurídico e reputacional.
No agregado setorial, o mercado global de criptomoedas já liquidou uma parcela substancial de valor desde o pico: estimativas apontam para uma perda próxima de US$1,9 trilhão. Esse realinhamento de valuation evidencia uma correção onde a liquidez e o apetite por risco recuam em resposta à combinação de política monetária mais restritiva e maior supervisão sobre fluxos institucionais.
Para investidores e gestores, a lição imediata é de gestão de risco e perfilagem de carteira. Em termos de estratégia, a queda do Bitcoin reabre o debate sobre alocação em ativos digitais num portfólio de alto desempenho: trata-se de calibrar exposição e proteger retornos diante da potencial aceleração das taxas e da redução do balanço da Fed — o que, metaforicamente, significa revisar o design das políticas internas e os freios aplicáveis às posições mais voláteis.
Em suma, estamos diante de um episódio que combina sinalização de política monetária, movimentações estratégicas de atores corporativos e ajustes de mercado. O motor da economia financeira está sendo realimentado por forças distintas, e a capacidade dos investidores de antecipar essa aceleração de tendências fará diferença entre quem preserva capital e quem assume risco excessivo.
Stella Ferrari é economista sênior e estrategista de investimentos da La Via Italia.






















