Christine Lagarde anunciou que a Banco Central Europeu (BCE) encerrou 2025 com uma perda de 1,25 bilhões de euros, uma redução expressiva frente aos 7,94 bilhões de prejuízo registrados em 2024. O resultado reflete principalmente a queda das despesas líquidas por juros e o menor impacto dos saldos TARGET, em um contexto em que o Eurosistema vê seu balanço total estabilizar em 6.293 bilhões de euros.
Do ponto de vista patrimonial, o valor das reservas de ouro aumentou para 1.274 bilhões de euros, pressionado pela valorização do metal em euros. Apesar da perda contábil de 2025 — avaliada em aproximadamente 1.254 milhões de euros nos demonstrativos —, a gestão da BCE confirma que esse resultado permanecerá no balanço e será compensado por lucros futuros. Em consequência, não haverá distribuição de lucros às bancos centrais nacionais da área do euro referentes ao exercício de 2025.
O movimento de perdas que se observa desde 2022 sucede anos de lucros robustos e está diretamente ligado às medidas de política monetária adotadas pelo Eurosistema para cumprir seu mandato de estabilidade de preços. Para ancorar a inflação, a instituição ampliou seu balanço por meio da aquisição de ativos de taxa fixa e longo prazo, elevando simultaneamente as passividades remuneradas a taxas variáveis — a chamada assimetria de juros. A subida dos juros-chave em 2022 e 2023 elevou os custos de financiamento, enquanto os rendimentos provenientes de títulos adquiridos no âmbito do APP e do PEPP não aumentaram na mesma proporção.
A partir de 2024, a reversão parcial desse descompasso começou a se materializar: a redução das taxas de referência e o amadurecimento de títulos de política monetária reduziram o estoque de passivos remunerados, atenuando o diferencial de juros. O efeito mais direto foi a queda das despesas líquidas por juros em 2025, que impulsionou a compressão da perda anual em relação a 2024.
As projeções internas da BCE apontam para um retorno à lucratividade em 2026 ou no ano seguinte, dependendo da evolução das taxas de juros, dos câmbios e da composição futura do balanço. Importante ressaltar: a capacidade operacional do banco não está condicionada ao resultado anual. A solidez da instituição é sustentada pelo capital e por fundos expressivos de reavaliação — que ao fim de 2025 somavam 71 bilhões de euros, 12 bilhões a mais que em 2024.
Do ponto de vista estratégico, a leitura é clara para gestores e investidores: a BCE navegou um período de ajustes técnicos no balanço, cuja calibragem dos juros funcionou como um ajuste fino do “motor da economia”. A redução de encargos relacionados aos saldos TARGET e a menor pressão dos custos de financiamento representam uma desaceleração controlada das forças que haviam inflado os encargos em 2022-23.
Como analista com experiência em macroeconomia e mercados de alto padrão, observo que a trajetória para recuperação de resultados depende tanto da política de taxas quanto do desenho futuro das intervenções no mercado. A BCE mantém os “freios fiscais” e os “ajustes de calibragem” necessários para cumprir seu mandato sem sacrificar a capacidade operativa — um design de política que exige disciplina técnica e visão estratégica para manter a estabilidade sem comprometer a robustez do sistema financeiro.






















