Em uma decisão sem surpresas, o BCE manteve inalterados os três principais níveis das taxas de juros na primeira reunião do Conselho Diretivo de 2026. A instituição reafirmou que a inflação “deveria estabilizar-se no objetivo de 2% a médio prazo”, justificando a manutenção das taxas nos patamares atuais: depósito a 2,00%, operações de refinanciamento principais a 2,15% e operações de refinanciamento marginal a 2,40%.
No comunicado final, o Conselho Diretivo destacou que a economia da zona do euro continua a mostrar “boa capacidade de resistência num contexto mundial difícil”. Entre os suportes à atividade, a autoridade monetária citou o baixo nível de desemprego, a solidez dos balanços do setor privado, a execução gradual da despesa pública para defesa e infraestruturas e os efeitos favoráveis decorrentes das passadas reduções das taxas de juros, que vêm atuando como um motor de sustentação do crescimento.
Ao mesmo tempo, a leitura do BCE sublinha incertezas persistentes, particularmente relacionadas às políticas comerciais e às tensões geopolíticas globais. A instituição reiterou seu compromisso com “um enfoque orientado por dados”, o que significa que as decisões serão avaliadas e tomadas reunião a reunião, conforme a evolução das evidências económicas.
Na coletiva de imprensa em Frankfurt, a presidente Christine Lagarde informou que a decisão sobre os juros foi unanime. O Conselho discutiu também a trajetória do câmbio euro/dólar: observou-se uma depreciação do dólar desde março do ano anterior e, desde o verão de 2025, o par oscila dentro de um range. Segundo Lagarde, o impacto de um euro mais forte já foi incorporado nas estimativas centrais do BCE e o atual intervalo de câmbio está alinhado com a média histórica desde a criação da moeda única. Ainda assim, admitiu que uma valorização adicional do euro poderia reduzir a inflação além das expectativas.
A presidente também chamou atenção para um componente estrutural que torna o cenário desafiador: “a situação no plano comercial é desafiante por causa dos dazi e da força do euro”. Em termos setoriais, a expansão da região está sendo puxada majoritariamente pelos serviços, enquanto a indústria transformadora tem mostrado resiliência, um comportamento que exige leitura fina na calibragem de políticas.
Lagarde rejeitou a ideia de reagir a um único dado mensal — em referência à queda da inflação para 1,7% em janeiro — e reafirmou a narrativa de que o BCE está “bem posicionado” em direção ao alvo de 2% no horizonte de médio prazo (2027–2028). Em linguagem de engenharia de políticas, a autoridade prefere ajustar a calibragem dos juros com base em um conjunto robusto de sinais, evitando ser refém de leituras pontuais.
Como estrategista, leio a decisão do BCE como uma manutenção prudente do ritmo: não se acelera nem se puxam os freios fiscais de modo abrupto, mas se mantém o motor da economia regulado até que a trajetória de inflação mostre consistência. Para mercados e empresas, a mensagem é clara — estabilidade nas condições financeiras, com atenção redobrada às variáveis externas (comércio e câmbio) que podem exigir nova calibragem.






















