A indústria automobilística europeia atravessa hoje uma das suas fases mais delicadas das últimas décadas. Pressionada por concorrentes asiáticos, por medidas protecionistas americanas e por entraves internos — desde custos energéticos elevados até atrasos na transição elétrica — o setor corre o risco de perda estrutural de produção, emprego e soberania tecnológica.
Os grandes grupos do Velho Continente — de Stellantis a Volkswagen, de Renault a BMW — convergem numa conclusão operacional e estratégica: sem uma política industrial europeia coordenada, o motor da economia automotiva corre o risco de perder cilindros essenciais. Como numa calibração fina de motor de alta performance, falta hoje uma arquitetura de políticas que permita competir em termos de custos, inovação e escala.
De um lado, a ofensiva chinesa, com fabricantes como BYD e grupos como SAIC Motor, beneficia de cadeias de suprimento integradas, custos energéticos e industriais mais baixos e políticas públicas de apoio que permitem ofertar modelos elétricos a preços difíceis de replicar na Europa. Do outro, o cenário internacional mudou de marcha com o pacote norte-americano — especialmente o Inflation Reduction Act — que transformou os EUA num ímã de investimentos em veículos elétricos e baterias, criando um campo de competição distorcido por subsídios.
O resultado prático aparece nos números do mercado: marcas asiáticas ganham participação, enquanto fabricantes tradicionais veem margens comprimidas. O problema não é apenas a procura, mas a rentabilidade dos automóveis elétricos produzidos no continente, onerados por custos regulatórios e energéticos superiores aos concorrentes globais.
Para Antonio Filosa, responsável europeu da Stellantis, a saída exige uma estratégia clara e estruturada de Made in Europe. Não se trata de retórica identitária, mas de medidas concretas: proteger a base produtiva, localizar a cadeia de valor das baterias, tornar estruturais incentivos à demanda e reduzir o diferencial de custo que penaliza fábricas locais frente às asiáticas e americanas.
Sem uma indústria de células e materiais competitiva, a Europa corre o risco de transformar-se num mercado de destino para tecnologias desenvolvidas em outros lugares. Isso significa dependência estratégica — com erosão de competências em química, materiais avançados, software embarcado e infraestrutura de recarga — e perda de postos de trabalho qualificados. A transição elétrica pode, assim, passar de oportunidade para armadilha se não for acompanhada por investimentos coordenados em baterias, cadeias de suprimentos, software automotivo e redes de carregamento.
Além dos fatores externos, regras internas e custos de energia funcionam como freios fiscais que reduzem a competitividade. A resposta europeia exige uma combinação de medidas macro e micro: mitigação dos custos energéticos para parques industriais estratégicos, incentivos fiscais e à demanda bem desenhados, apoio à construção de gigafábricas competitivas e coordenação em políticas de matérias-primas críticas.
Como estrategista que acompanha mercados globais, vejo a urgência como uma questão de engenharia de políticas: projetar um sistema em que a Europa recupere torque e aceleração sem sacrificar a sustentabilidade. A janela de oportunidade é estreita; a falta de ação coordenada poderá transformar um setor historicamente robusto em mera carcaça de consumo, enquanto a propriedade intelectual e a montagem de alto valor agregado migram para outros polos.
Preservar produção, emprego e soberania tecnológica passa por passos concretos — harmonização de incentivos, proteção seletiva da cadeia de valor, alívio de custos energéticos industriais e aposta decidida em baterias e tecnologias relacionadas. A Europa precisa recuperar a função de projeto e não apenas de mercado; só assim seu parque automotivo voltará a ser engine da competitividade global.






















