Por Stella Ferrari — Em um momento que representa a aceleração de tendências no cenário comercial global, a **UE-Mercosul** foi formalmente assinada em Assunção, Paraguai, no Gran Teatro José Asunción Flores do Banco Central do Paraguai. A cerimônia, que conclui mais de 25 anos de negociações, reuniu líderes e representantes dos blocos: a presidente da Comissão Europeia, von der Leyen, o presidente argentino Javier Milei, o anfitrião Santiago Peña, o líder uruguaio Yamandú Orsi e o ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Mauro Vieira, em representação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A assinatura é um passo decisivo — o motor simbólico que conecta dois mercados que, somados, alcançam quase 20% do PIB global e juntas abarcam cerca de 700 milhões de pessoas. Contudo, como qualquer projeto de engenharia de alto desempenho, a peça ainda necessita de calibração: a ratificação final dependerá do voto do Parlamento Europeu, previsto até a primavera.
O acordo prevê a eliminação ou forte redução de tarifas sobre aproximadamente 90–93% das exportações europeias para os países do **Mercosul** (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). Estima-se uma economia anual superior a 4 bilhões de euros para setores-chave, com destaque para o setor **automotivo**, cujas tarifas — hoje de até 35% — serão progressivamente eliminadas ao longo de 15 a 18 anos.
Em seu discurso, a presidente da Comissão enfatizou o sinal geopolítico e econômico do acordo: “Este acordo envia um sinal forte ao mundo. Preferimos o comércio justo aos da carga tarifária; preferimos parcerias produtivas e de longo prazo”. von der Leyen sublinhou que a iniciativa quer construir pontes e ampliar oportunidades reais para empresas e cidadãos.
O presidente argentino Javier Milei destacou, entre aplausos, o papel da liderança italiana: “Quero agradecer em especial a contribuição da minha amiga, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni: seu empenho foi crucial para o sucesso deste processo”. A menção reflete a diplomacia ativa que contribuiu para destravar pontos sensíveis nas negociações.
Também presente, o presidente do Conselho Europeu, identificado como Antonio Costanel durante a cerimônia, afirmou que o acordo transcende as cifras: trata-se de uma reafirmação do multilateralismo e do direito internacional como base das relações inter-regionais. “Não buscamos esferas de influência, mas zonas de prosperidade compartilhada; não queremos dominar, queremos conectar”, observou.
Do ponto de vista econômico, o texto assinado funciona como uma recalibragem nos freios e nos motores da política comercial: ao reduzir tarifas, aumenta-se a eficiência e a competitividade, ao mesmo tempo em que surgem desafios de ajuste setorial em indústrias sensíveis. Empresas do setor automotivo, agroindustrial e de manufatura europeias e sul-americanas terão ganhos de escala e redução de custos, enquanto governos precisarão desenhar mecanismos para mitigar choques de realocação produtiva.
É importante também lembrar a composição do bloco: além dos quatro membros plenos (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai), a Bolívia concluiu recentemente seu processo de adesão plena (2024/2025), enquanto a Venezuela permanece suspensa. Países como Chile, Colômbia, Equador, Peru, Guiana e Suriname mantêm status de Estados associados.
O passo de Assunção é, portanto, uma vitória diplomática e uma peça-chave na estratégia de expansão do comércio global. Resta a próxima etapa parlamentar, que validará — ou ajustará — a travessia rumo a uma zona de livre comércio que promete redesenhar rotas de investimento e cadeias de valor entre Europa e América do Sul.





















