Em Bruxelas, o ministro da Agricultura italiano, Francesco Lollobrigida, reiterou que a assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosur só ocorrerá se forem certificadas as garantias exigidas pelo setor produtivo nacional. A declaração foi feita antes da reunião dos 27 ministros da Agricultura com os comissários europeus responsáveis pela pasta, incluindo Christophe Hansen, e representantes do Comércio e das Relações Interinstitucionais, Maros Šefčovič e Olivér Várhelyi, respectivamente.
“Se vierem certificadas as premissas de garantia do mundo produtivo que pedimos, nós aprovaremos a assinatura do acordo”, afirmou Lollobrigida, numa intervenção de tom firme e técnico. Para o ministro, a posição italiana combina uma visão aberta ao comércio — “somos uma nação exportadora” — com a exigência de que as regras do jogo sejam equivalentes para todos os concorrentes.
Essa exigência passa, segundo o ministro, por salvaguardas financeiras para setores que poderiam ser afetados por flutuações de mercado decorrentes da abertura comercial, bem como por mecanismos efetivos de reciprocidade que garantam padrões sanitários e ambientais equivalentes aos aplicados na Europa. “Quando se impõem regras aos produtores, limitando sua capacidade de competir em preços, não se pode ter um sistema tarifário que permita a outros competir justamente porque não respeitam as mesmas regras sobre direitos ambientais e trabalhistas”, declarou Lollobrigida — reforçando a necessidade de calibragem fina das medidas, como quem ajusta o torque de um motor para obter desempenho sem perda de controle.
O governo italiano tem, há meses, travado negociações mais duras para obter salvaguardas mais sólidas. A assinatura, inicialmente prevista para dezembro, foi adiada para janeiro justamente por reservas levantadas por Roma e por outros Estados-membros preocupados com o potencial impacto das importações agrícolas nas produções europeias. A primeira-ministra Giorgia Meloni chegou a qualificar como “prematuro” um sim sem as proteções necessárias.
Entre os pontos de discórdia está o chamado “freno de mão” (mecanismo de salvaguarda): o texto negociado prevê um limiar que passou de 10% para 8% e, segundo Lollobrigida, ainda não é suficiente. O ministro lembrou que o Parlamento Europeu apontou para 5% como referência mais adequada e voltou a defender que essa pista seja considerada na versão final do acordo.
Além das salvaguardas, a palavra-chave é reciprocidade. “O que vale para os nossos vale para os produtos que entram a concorrer com os nossos”, disse o ministro, sublinhando que a Itália vê no Mercosur uma oportunidade para acelerar sua vocação exportadora — desde que não se sacrifique nenhum setor produtivo nacional no processo.
Do outro lado do espectro diplomático, fontes de Berlim manifestaram otimismo. O governo alemão, segundo interlocutores presentes, declara-se “confiantes” de que será possível fechar um acordo com salvaguardas suficientes para acomodar as preocupações dos Estados-membros. A confiança alemã serve como elemento de tração nas negociações, mas Lollobrigida deixou claro que o motor dessa decisão continuará sendo a avaliação das garantias para a cadeia produtiva italiana.
O acordo UE–Mercosur, que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, representa um capítulo decisivo de mais de 25 anos de negociações e pode reformular blocos de comércio e cadeias de valor. Para Roma, a questão passa por manter o equilíbrio entre abertura e proteção estratégica: abrir portas para exportação, sem desligar os freios necessários que preservem padrões sociais, ambientais e econômicos.
Em linguagem de gestão: trata-se de calibrar a aceleração das exportações sem comprometer a integridade do chassi produtivo europeu. A assinatura dependerá, portanto, de indicadores técnicos e de garantias financeiras e de reciprocidade que deem segurança ao setor agrícola.































