Por Stella Ferrari
03 de fevereiro de 2026
A contratação coletiva deixou de tratar o envelhecimento da força de trabalho como um tema teórico: passou a ser uma variável organizacional central. O conceito de age management ganha contornos práticos tanto nos acordos nacionais quanto nas convenções de empresa, sinalizando uma mudança cultural profunda: a demografia deixa de ser apenas pano de fundo e torna-se matéria-prima das relações industriais.
O novo perfil ocupacional torna essa mudança praticamente inevitável. O peso dos trabalhadores over 50 cresce de forma estrutural enquanto a base de trabalhadores mais jovens se contrai. Não é apenas um ajuste estatístico: essa transição altera produtividade, desenho organizacional, transmissão de competências e a sustentabilidade dos regimes de bem‑estar empresarial. Em outras palavras, a idade deixa de ser um dado puramente administrativo para virar uma alavanca estratégica.
Um dos sinais mais visíveis dessa evolução foi a inclusão, nos textos de negociação coletiva, de mecanismos como a troca geracional (equivalente à staffetta generazionale). São instrumentos concebidos para facilitar a entrada de jovens ao mesmo tempo em que promovem uma saída gradual dos profissionais seniores — por meio de redução de jornada, part‑time de fim de carreira ou planos de transição rumo à aposentadoria. Em fóruns institucionais como o CNEL, a convivência entre gerações já é tratada como fator estrutural do mercado de trabalho. A novidade é que a idade passa a ser governada, não simplesmente mitigada.
Além da troca geracional, emergem pactos que valorizam o papel dos trabalhadores sênior como tutores e formadores internos. A saída do emprego deixa de ser um evento abrupto e transforma‑se num processo acompanhado, com o objetivo de evitar a dissipação do capital de conhecimento acumulado ao longo de décadas. Assim, a gestão deixa de focalizar apenas o custo do trabalho e volta‑se para o valor do trabalho ao longo do tempo — uma calibragem fina como a de uma transmissão automática bem ajustada.
Enquanto os contratos nacionais estabelecem a arquitetura normativa, é na negociação de segundo nível que o age management assume caráter operacional. Acordos corporativos vêm reconhecendo explicitamente a coexistência de diferentes gerações como uma variável organizacional que deve ser gerida com instrumentos dedicados: comissões paritárias, observatórios internos, projetos de mentoria intergeracional e programas de succession planning. Nessas experiências, o profissional sênior não é visto apenas como um custo crescente, mas como um reservatório de conhecimento técnico e relacional.
Grandes empresas já implementaram iniciativas práticas: rotas de transferência de competências, formação reversa (onde jovens atualizam seniors em tecnologias digitais), horários flexíveis e esquemas de trabalho híbrido compatíveis com trajetórias de fim de carreira. Esses mecanismos não são cosméticos; são a manutenção do motor da economia em funcionamento, preservando torque e potência entre gerações.
Do ponto de vista de políticas públicas e negociações coletivas, a agenda é clara: incentivar instrumentos que conciliem capacitação contínua, flexibilidade contratual e incentivos fiscais para a retenção e transferência de competências. A calibragem correta entre incentivo e regulação pode atuar como a correta calibragem de juros para o investimento em capital humano: promove aceleração sem sobreaquecimento.
Em síntese, a inclusão do fator idade na contratação coletiva representa uma mudança estratégica. Empresas e sindicalistas que adotarem práticas estruturadas de age management transformarão um desafio demográfico em fonte de vantagem competitiva — preservando competências, garantindo sustentabilidade do sistema de bem‑estar e acelerando a adaptação organizacional num contexto de rápidas transformações tecnológicas.
Para quem define políticas de recursos humanos ou negocia acordos coletivos, a mensagem é direta: integrar a gestão etária ao design das políticas de trabalho não é um luxo, é uma necessidade estratégica, a verdadeira alavanca para manter o motor produtivo em rotação estável.





















