Por Stella Ferrari — Em mais um capítulo da intensa disputa sobre a política comercial dos Estados Unidos, 24 estados moveram uma ação judicial contra a administração de Trump pelas novas tarifas anunciadas após a intervenção da Corte Suprema que havia barrado as medidas tarifárias iniciais. Trata‑se da primeira grande investida legal contra a última fase da agenda protecionista do presidente.
A primeira leva de tributos havia sido imposta com base no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). As tarifas recentes, anunciadas no mês passado, recorrem a um instrumento legislativo distinto e menos conhecido: a Seção 122 do Trade Act de 1974. Essa norma autoriza o presidente a estabelecer tarifas de até 15% por um período máximo de 150 dias. Os estados acusam o presidente de ter novamente extrapolado os limites da legislação federal.
Na ação, os demandantes sustentam que a Seção 122 não autoriza o uso para a correção do déficit comercial e que não há precedentes para sua utilização como base para a imposição de tarifas gerais. Argumentam que o dispositivo confere uma “autoridade tarifária limitada” destinada a tratar déficits de conta corrente graves, e que a interpretação do governo que equipara “balança de pagamentos” a um simples déficit comercial é juridicamente insustentável e “fatally errada”.
“Neste momento, a atenção deveria se voltar ao reembolso das despesas, e não ao dobrar de tarifas ilegais”, afirmou Dan Rayfield, procurador‑geral do Oregon, na quinta‑feira, destacando o impacto direto sobre consumidores e empresas estaduais. A petição judicial é o desdobramento previsível de uma série de contestações ao uso extensivo dos poderes executivos por parte do governo federal para redesenhar o sistema de comércio global sem a participação plena do Congresso.
Desde seu retorno à Casa Branca, no ano passado, Trump elevou a alíquota média de importações dos EUA ao nível mais alto desde o pós‑guerra, impondo tarifas robustas a aliados e parceiros comerciais e arrecadando bilhões em receitas. Os estados ressaltam que a Seção 122 foi concebida como instrumento de caráter emergencial, não como mecanismo rotineiro de política comercial.
O porta‑voz da Casa Branca, Kush Desai, declarou que a administração “defenderá com vigor” as ações do presidente nos tribunais. Em termos fiscais, esperava‑se originalmente que as receitas tarifárias compensassem parte do déficit dos EUA — estimado em cerca de US$ 3 trilhões na próxima década — mas o Congressional Budget Office (CBO) apontou que a decisão da Corte sobre o IEEPA reduziria esse impacto em cerca de US$ 2 trilhões, já incluindo custos de serviço da dívida.
O processo promete arrastar o plano econômico presidencial para outra longa batalha judicial, com implicações que ultrapassam o jogo de curta distância política: trata‑se de uma disputa sobre os freios e as alavancas institucionais da política comercial americana. Do ponto de vista estratégico, estamos diante de uma calibragem institucional — quem tem o volante no design de políticas comerciais, o Executivo ou o Legislativo — que definirá a aceleração das tendências protecionistas no motor da economia global.






















