Em 2026 celebramos um marco que é ao mesmo tempo nostálgico e revelador: os 100 anos da primeira publicação de Winnie-the-Pooh, o urso criado pelo escritor britânico Alan Alexander Milne (1882–1956). A coletânea de contos publicada em 1926, ilustrada pelas traçadas inconfundíveis de Ernest Howard Shepard, tornou-se um espelho cultural — um roteiro afetivo que atravessou gerações e se consolidou no imaginário global.
As comemorações no Reino Unido prometem transformar esse legado em experiência coletiva. A companhia artística Trigger, conhecida por suas grandiosas marionetes de rua, coordenará The Big One Hundred, uma série de eventos gratuitos que acontecerão na Ashdown Forest — a paisagem que inspirou Milne para as aventuras no Bosque dos Cem Acres — e em outras localidades culturais do East Sussex.
“Estamos orgulhosos de apoiar um programa que valoriza nosso patrimônio cultural, une comunidades e constrói uma herança duradoura para a Ashdown Forest”, declarou Rachel Millward, conselheira do Wealden District Council, reforçando o vínculo entre memória literária e conservação ambiental. A floresta, uma brughiera rara e classificada como Sítio de Especial Interesse Científico (SSSI), abriga espécies vulneráveis e funciona como um marco ecológico tão precioso quanto as páginas que inspirou.
A partir do verão, visitantes poderão explorar a mata e encontrar uma nova criatura mitológica em escala monumental: uma marionete gigante, concebida a partir da biodiversidade local e apresentada por Trigger em performances interativas. Essa intervenção performática é um dos gestos simbólicos do centenário — uma espécie de reframe da memória que reconecta literatura, comunidade e paisagem natural.
O projeto terá forte componente educativo. Escolas primárias do distrito de Wealden serão convidadas a participar gratuitamente de oficinas criativas para desenhar suas versões da criatura ou escrever narrativas inspiradas em “The Curious Adventurer”. A participação pública também foi pensada para o ambiente digital: o público poderá sugerir nomes para a marionete e compartilhar desenhos e histórias nas redes usando a hashtag #TheBigOneHundred. É uma semiótica do viral que respeita a tradição oral e a inventividade infantil.
A iniciativa conta ainda com o apoio financeiro da Ashdown Forest Foundation, cujo aporte será direcionado à proteção do território. A conjugação de arte, educação e conservação traduz uma estratégia de legado: celebrar Winnie-the-Pooh não é apenas revisitar um clássico, mas investir na preservação do cenário que o tornou possível — uma narrativa onde cultura e ecologia se refletem mutuamente.
Como observadora cultural, vejo nesse centenário algo mais que festa: um convite a refletir sobre por que personagens aparentemente simples resistem ao tempo. O Ursinho Pooh funciona como um espelho do nosso tempo — sua ingenuidade, seus medos e suas amizades falam de laços sociais tão necessários hoje quanto eram há um século. As celebrações em Ashdown Forest propõem, portanto, uma experiência de memória ativa: recriar, proteger e recontar.
Para quem acompanha cultura e tendências, o evento é um case de como o patrimônio literário pode ser reativado para objetivos contemporâneos — engajamento comunitário, pedagogia criativa e conservação ambiental — sem perder a doçura do original. Em tempos em que o entretenimento muitas vezes é descartável, o centenário de Winnie-the-Pooh é um lembrete de que algumas histórias são patrimonio vivo, capazes de remodelar o cenário cultural e natural em que nascem.





















