Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece saído de um roteiro cuidadosamente escrito, o Vaticano anunciou a constituição de um Comitê científico com a missão de avaliar propostas de investigação sobre a obra de Michelangelo. A notícia, confirmada pelo porta-voz da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, refere-se à hipótese — ainda em caráter de estudo — de que cerca de vinte peças atribuíveis ao mestre poderiam ter permanecido desconhecidas até hoje.
O impulso para a verificação surge no contexto das comemorações dos 550 anos do nascimento do artista (1475-2025). A hipótese em pauta integra uma pesquisa conduzida pela estudiosa independente Valentina Salerno, que se dedicou à reconstrução da última fase da vida de Michelangelo a partir de documentos em arquivos italianos e estrangeiros.
Segundo a reconstrução proposta por Salerno, o artista não teria destruído uma parte significativa de seus estudos, bozzetti e desenhos — como a historiografia tradicional sustentou por décadas — mas os teria confiado a discípulos e pessoas de confiança, com o objetivo explícito de preservá-los. Esses materiais, de acordo com um documento citado no estudo, teriam sido guardados em uma sala protegida por várias chaves, inacessível por mais de quatro séculos.
Partindo dessa narrativa de proteção e esquecimento, a pesquisadora supõe a existência de cerca de vinte peças diretamente vinculáveis à mão do mestre. O trabalho contou com o apoio dos Canonici Regolari Lateranensi del Santissimo Sacramento e do professor Michele Rak.
Em resposta a essas alegações, o cardeal arcipreste da Basílica de São Pedro, Mauro Gambetti, formalizou a criação do Comitê científico, reunindo especialistas de museus e centros de pesquisa de renome internacional. A Fabbrica di San Pietro, por meio de sua assessoria de comunicação, esclareceu que o corpo consultivo foi instituído no âmbito das celebrações dos 550 anos do nascimento do artista e tem competência para avaliar propostas de estudo e aprofundamento sobre a obra do artista.
Importante sublinhar: a análise do comitê sobre a hipótese de Salerno não equivale, neste momento, a um reconhecimento científico das atribuições propostas. A questão permanece no plano da investigação preliminar. Só após verificações rigorosas — incluindo análises documentais, estilísticas e exames científicos compartilhados pela comunidade acadêmica — poderão vir confirmações ou rejeições definitivas.
Como observadora cultural, vejo nessa operação um episódio emblemático do nosso tempo: a possível reaparição de obras atribuídas a um dos maiores artistas do Renascimento recebe hoje o mesmo tratamento investigativo que um roteiro de mistério recebe no cinema — verificação, ciência e debate público substituem o simples encantamento. Se confirmadas, essas peças seriam um novo espelho do nosso entendimento sobre a última fase da vida de Michelangelo, e também um reframe da memória artística que guardamos como patrimônio europeu e global.
Enquanto os especialistas trabalham, resta ao público a mistura fascinante de expectativa e prudência. Afinal, na história da arte, mais do que revelações sensacionais, o que transforma nossa compreensão é o método: a paciência dos arquivos, a precisão dos exames e o consenso dos pares. O roteiro oculto da história de Michelangelo ainda está em escrita — e por ora, é o silêncio das salas trancadas que aguarda ser traduzido em certezas.






















