Por Alessandro Vittorio Romano
Por anos a narrativa do turismo italiano foi dominada pelo termo overtourism: centros históricos superlotados, destinos icônicos sob pressão e moradores que sentem a respiração sufocante da cidade. Mas, como acontece nas estações, quando o vento muda e oferece outra direção, em 2025 despontou com força uma nova bússola para o setor — o Undertourism. Não é apenas o antônimo semântico; é um redirecionamento de visão que coloca no centro os borghi, as áreas internas e os pequenos municípios.
O conceito de Undertourism aponta para um vasto patrimônio turístico subutilizado: vilarejos, territórios rurais e montanhosos com identidade, história e qualidade ambiental que permanecem à margem dos fluxos principais. Enquanto cerca de 4% do território recebe 75% dos visitantes, o chamado “restante 96%” enfrenta fluxos contidos ou irregulares — uma paisagem silenciosa que, em muitos sentidos, é a verdadeira maioria cultural do país.
Mas este silêncio não é vazio; é potencial. Diferente do turismo de massa, o Undertourism valoriza experiências autênticas, ritmos mais lentos e uma relação equilibrada entre visitante e comunidade. Não se trata de um turismo menor, e sim de um turismo que exige planejamento, qualidade da oferta e uma visão de longo prazo: infraestrutura sensível, formação local, roteiros que respeitem os ciclos sazonais e formas de mobilidade que não desfigurem a paisagem. É uma colheita de hábitos pensada para nutrir territórios, não apenas explorá‑los.
O ano de 2025 foi um ponto de virada: além dos recordes gerais do turismo nacional, observou‑se um crescimento claro para a Itália “menor”. Estima‑se que os borghi e os pequenos municípios tenham atraído mais de 20 milhões de chegadas — um sinal de que o interesse tornou‑se maduro e persistente, não mais episódico. Entre os fatores que impulsionaram essa mudança estão a busca por turismo sustentável, o desejo por experiências enogastronômicas autênticas (ressaltado pelo selo da cozinha italiana na esfera internacional), e novas possibilidades de trabalho remoto que libertaram trajetórias.
Governança local e políticas públicas entram em cena como solo fértil: é preciso investir em conectividade digital, pequenas estruturas de acolhimento, circuitos culturais que liguem locais vizinhos e uma promoção que mostre a riqueza cotidiana desses lugares. Só assim se constrói uma oferta turística capaz de respeitar as comunidades e distribuir benefícios de forma justa. Há aqui uma lição de equilíbrio: a cidade e o campo respiram em ciclos; quando o turismo aprende a sincronizar seu compasso ao tempo interno das localidades, ambos prosperam.
Do ponto de vista sensorial, o Undertourism devolve ao visitante o prazer da descoberta lenta — o caminhar por uma praça sem pressa, o diálogo com um artesão, a mesa compartilhada onde a tradição culinária se revela como memória e futuro. É um convite a viver a Itália como um território vivo, com raízes profundas e possibilidades de renovação.
Esse novo mapa do turismo exige também uma mudança de mentalidade por parte dos atores privados: qualidade sobre quantidade, serviços que respeitem a sazonalidade, e uma narrativa que coloque em destaque a cultura local e a sustentabilidade. A recompensa é uma rede mais resiliente, capaz de resistir a choques e preservar a autenticidade que tantos visitantes buscam.
Em suma, o Undertourism não é um refúgio nostálgico nem uma recusa ao movimento das grandes rotas; é uma proposta de equilíbrio — um ajuste fino na bússola do turismo italiano que reconhece que a prosperidade pode (e deve) brotar também onde o fluxo é mais sereno. Como quem cuida de um jardim, é preciso entender as estações, cultivar com paciência e colher os frutos de uma visão que dura além de uma única temporada.





















