Por Chiara Lombardi — A sucessão de Stefano Boeri à frente da Triennale di Milano transforma-se num espelho das tensões que atravessam a cena cultural italiana: entre identidade institucional, política municipal e ambições ministeriais. Com o mandato de Boeri a expirar e a passagem de bastão marcada para 28 de março, multiplicam-se as consultas entre a Região, a Câmara de Comércio, o prefeito Beppe Sala e o ministro da Cultura, Alessandro Giuli.
Inicialmente indicado pelo Ministério, o nome de Andrée Ruth Shammah — referência teatral milanesa e fundadora do Teatro Franco Parenti — suscitou reação por parte do Comune. A crítica central foi prática e simbólica: para uma instituição cuja voz é reconhecida internacionalmente como palco da arquitetura e do design, seria preferível um perfil com competências mais próximas dessas áreas. Fontes relataram que a própria Shammah destacou seu interesse exclusivo pelo teatro e a intenção de não ser um ponto de choque político, gesto que flertou com a hipótese de um passo atrás.
Segundo novas informações, o ministério teria então apresentado outro nome: o do professor e historiador da arte Vincenzo Trione, docente titular em Arte e Media e História da Arte Contemporânea na Universidade IULM e curador do Padiglione Italia na Bienal de Veneza em 2015. A indicação de Trione revela uma aposta por um perfil acadêmico e curatorial, que conecta o repertório histórico-artístico às demandas contemporâneas da Triennale.
Na lista dos potenciais candidatos também figuram pesos pesados do design e da cidade: o arquiteto e pesquisador Carlo Ratti, especialista no diálogo entre tecnologia e urbanismo e professor no MIT, conta com o apoio do Comune; e Michele De Lucchi, visto como um nome de conciliação entre as posições municipal e ministerial. Outros nomes que circulam nas negociações são os do designer Fabio Novembre e de Antonio Calabrò, presidente do Museimpresa e figura conhecida no ecossistema da cultura empresarial.
O processo de escolha mantém-se formalmente claro, mas politicamente sensível: o presidente é eleito pelo conselho de administração a partir da indicação do ministro da Cultura, enquanto o Comune, através do prefeito, detém uma espécie de veto político. Este equilíbrio institucional já produziu confrontos no passado — recorde-se a disputa em torno de Claudio De Albertis e a acalorada nomeação que conduziu à liderança de Stefano Boeri, resolvida apenas após intensa mediação.
Mais do que uma simples troca de cadeiras, o episódio da Triennale é um pequeno roteiro sobre como as instituições culturais calibram identidade, autoridade e representação no palco público. Quem encenar a próxima direção terá não só a responsabilidade administrativa, mas também o papel simbólico de traduzir o que hoje entendemos por cidade criativa: uma narrativa que entrelaça memória, projeto e inovação.
Enquanto as negociações prosseguem, a atenção permanece voltada para 28 de março, data indicada para a transição. Até lá, o debate promete ser um termômetro da relação entre Ministério e Comune — e um espelho daquilo que a cultura italiana escolhe enfatizar quando se trata de arquitetura, design e memória coletiva.





















