Por Chiara Lombardi — Em um movimento editorial que funciona como um espelho do nosso tempo, a Treccani apresenta o Dizionario biografico e tematico delle donne in Italia, uma obra em três volumes que reúne as trajetórias de 650 mulheres que marcaram a história política, cultural e social da Itália. Publicado pelo Istituto della Enciclopedia Italiana, o conjunto chega em ocasião simbólica: o 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
Com mais de 2.500 páginas, o dicionário percorre três séculos de vidas e realizações — uma espécie de roteiro oculto da sociedade italiana, onde cada entrada funciona como cena decisiva. A obra é dedicada a Rita Levi-Montalcini, prêmio Nobel e figura central nas ciências, e reúne perfis que vão de nomes mundialmente reconhecidos a figuras que pedem releitura urgente no presente.
Entre as biografadas estão ícones como Maria Montessori, a pedagoga cujo legado pedagógico ainda orienta salas de aula; Maria Callas, a voz que moldou a ópera do século XX; e Nilde Iotti, primeira mulher presidente da Câmara dos Deputados na Itália republicana. Há também personagens de contornos menos óbvios: Elena de Savoia, uma rainha próxima ao povo em momentos de crise; Margherita Sarfatti, influente crítica de arte e formadora de políticas culturais entre guerras; e Sibilla Aleramo, cuja obra transformou uma experiência pessoal em símbolo da condição feminina.
O dicionário não se limita às celebridades. Recupera pioneiras como Tina Anselmi, primeira ministra italiana; Pasqualina (Lina) Furlan, a primeira penalista a fazer uma arringa em corte de assises; e Emma Strada, primeira engenheira do país. Mostra também ativistas e precursores de visibilidade social, como Mariasilvia Spolato, voz inaugural da visibilidade lésbica em solo italiano.
O escopo é abrangente: da arquitetura de Gae Aulenti às conquistas esportivas de Ondina Valla, primeira medalhista olímpica feminina da Itália; das pioneiras jurídicas como Lidia Poët ao pioneirismo cultural de figuras como Fernanda Pivano e Severina Parodi. Há espaço para empresárias e inovadoras, como Luisa Spagnoli, e para criadoras que moldaram a cultura popular, como Angela e Giuliana Giussani, mãe e irmã criadoras de Diabolik.
Ao folhear essas páginas, encontramos um mosaico onde direitos, artes, ciência e economia se entrelaçam — o que revela o dicionário como ferramenta tanto de memória quanto de análise crítica: um reframe da realidade que nos convida a mapear o eco cultural deixado por mulheres que, muitas vezes, escreveram suas cenas à margem do roteiro canônico.
Na prática editorial, a iniciativa representa um esforço de canonização e recuperação histórica: restitui presença e voz a quem contribuiu para o desenvolvimento cultural e social da Itália, iluminando trajetórias que ajudam a decifrar o presente. É um chamado para revisitar o arquivo coletivo e entender como essas vidas dialogam com as urgências contemporâneas — dos direitos civis às transformações nas artes e na ciência.
O Dizionario da Treccani é, portanto, mais que uma coletânea de biografias: é um painel interpretativo, uma biblioteca de cenas que juntas compõem o roteiro oculto da modernidade italiana. Ler essas páginas é reconhecer que a história nacional é tecido por múltiplas vozes — e que, por trás das luzes principais, há constelações de protagonistas prontas a recontar o que fomos e o que ainda podemos ser.
Entre os nomes recuperados: Silvana Mangano, Virna Lisi, Ninì Pietrasanta, Lidia Poët, Ondina Peteani, Giuliana Gramigna, Elena Konig, Giuni Russo, Franca Valeri, Tina Pica, Andreina Pagnani e Marisa Bellisario, entre muitas outras.
É uma obra para leitores atentos ao entrelinhas da história: para quem busca entender não apenas quem foram essas mulheres, mas como suas escolhas ressoaram nas instituições, nas artes e no imaginário coletivo. Um atlas biográfico que transforma nomes em lentes para ler a Itália contemporânea.






















