Vittorio Renuzzi estreia na ficção longa com Tra l’ombra e la rabbia, um romance que se afirma como uma presença original no panorama da narrativa italiana contemporânea. Polímata por formação e experiência — formado em Economia Política pela Università di Pavia, cofundador e diretor da Compagnia della Corte, idealizador do software GoAsso e veterano do teatro e do marketing cultural — Renuzzi transfere para as páginas do seu primeiro livro a mesma meticulosidade de um produtor teatral e a visão panorâmica de um analista social.

O livro propõe um híbrido elegante: um noir histórico que impõe ao leitor, sem artifícios, a sensação de que a revolta do XIX é um gesto vivido no presente. Para compor essa tessitura, o autor recorreu a um repertório documental amplo e rigoroso: memorialística e cronache patrióticas — algumas impressas na Suíça para driblar a censura asburgica — diários de funcionários austríacos, manuais de medicina da primeira metade do século XIX e códigos forenses do governo imperial; até mapas datados (1832 e 1860) foram usados para traçar as ruas, os palácios e os canais de uma Milano que já foi palco e personagem.
Essa atitude de pesquisa transforma a História em um personagem ativo: não um cenário neutro, mas uma presença que impõe escolhas, ergue barricadas, modifica destinos. Como Renuzzi explica, há um diálogo contínuo entre o grande tecido do passado e as pequenas decisões íntimas dos seus protagonistas — o que confere ao romance um pulso quase cinematográfico, uma montagem de causas e efeitos onde a paisagem social dita a tonalidade emocional da cena.
Do ponto de vista estilístico, sobressai o uso do diálogo como motor narrativo. Menos explicativo, mais operante, o discurso entre personagens evita a didatização e mantém a ação em suspensão: as conversas não apenas revelam informações, mas modelam caráteres, sugerem sombras e engendram tensões. É uma técnica que aproxima o leitor da materialidade cotidiana do século XIX — cheiros, ruídos, protocolos judiciais — e ao mesmo tempo preserva a fluidez do thriller.
Enquanto analisamos o livro no espelho do nosso tempo, fica claro que Tra l’ombra e la rabbia não é apenas uma evocação histórica. É um exercício de reencenação crítica: questiona como lembramos o passado, que vozes foram silenciadas e quais ruídos persistem como eco cultural. O resultado é um romance que dialoga com a tradição do romanzo storico italiano, mas com uma reconfiguração lírica e intelectual que o torna contemporâneo — capaz de interessar tanto ao leitor curioso por História quanto ao amante de suspenses bem tramados.
Para quem acompanha o autor em seus projetos culturais, a transição para a prosa longa surpreende menos do que confirma uma coerência temática: a interseção entre memória coletiva, institutos culturais e técnica narrativa. Em termos de recepção, Tra l’ombra e la rabbia se apresenta como uma bela surpresa, uma obra que explica por que o Risorgimento continua a ser um laboratório de sentido para a Itália e para quem procura nas letras uma lente sobre o presente.
Chiara Lombardi — La Via Italia






























