O Simpósio de Platão foi recentemente alvo de censura no Texas — um gesto que nos obriga a pensar além do escândalo imediato e a ler esse episódio como sintoma de uma crise cultural mais profunda. Segundo relatos, a remoção da obra do programa decorre de passagens em que se abordam gênero e raça, e por isso teria sido considerada imprópria para o contexto atual. Mas o que realmente está em jogo não é apenas a adequação de um texto clássico: é a concepção de como nos relacionamos com o passado e qual lugar damos à tradição.
Chamo isso, sem meias palavras, de mecanismo da cancel culture — ou melhor, da cancelação da cultura. Não se trata apenas de um contencioso sobre linguagem sensível; é a tentativa de transformar o presente num tribunal sobre a história, onde o veredito não busca compreender, interpretar ou aprender, mas simplesmente anular. É uma reedição autoritária do tempo: o presente autoengenharia-se como único horizonte legítimo e, assim, apaga a continuidade que nos permite pensar o futuro.
Ver Platão ser banido do repertório intelectual equivale a cortar a imagem do espelho em que nossas sociedades se reconhecem. O diálogo platônico contém camadas — éticas, políticas, estéticas — que exigem leitura, contexto e debate. Substituí-las por proibições é empobrecer o repertório crítico das novas gerações, privando-as do contato com a origem das categorias através das quais ainda interpretamos o mundo. A consequência é uma espécie de amnésia programada: a memória histórica é reduzida a fragmentos higienizados, e o presente assume-se como tribunal e autor.
Há aqui um roteiro oculto da sociedade tecnocapitalista: elevar o instante a condição ontológica suprema. Se aceitar essa lógica, inauguramos o que se poderia chamar de teorema do fim da história não apenas em termos de desenvolvimento teleológico, mas como obliteramento do passado. Não se trata de celebrar a tradição de forma acrítica; trata-se de reconhecer que a crítica verdadeira nasce do encontro, não do apedrejamento. Cortar o diálogo com Platão é perder a oportunidade de reinterpretá-lo, de extrair dele perguntas que ainda nos desafiam — sobre amor, poder, linguagem e o sentido do viver político.
Como analista cultural, vejo nessa censura um sintoma do nosso tempo: a pressa em julgar em vez de escutar, a vontade de ensinar ao passado em vez de aprender com ele. O episódio texano é, portanto, menos sobre Platão e mais sobre nós — sobre como escolhemos disputar os significados que orientam uma comunidade plural. Se a cultura virou campo de batalha, perdemos algo essencial: a capacidade de transformar herança em instrumento crítico.
Devemos resistir ao atalho da proibição e reivindicar o espaço do debate informado. No final, trata-se de proteger a possibilidade de formação intelectual que permite às futuras gerações distinguir entre o que merece reparação e o que merece estudo. Afinal, combater a censura é também defender o direito de confrontar o passado e, a partir dele, reescrever o roteiro do presente.
Artigo inspirado no texto de Diego Fusaro publicado em Il Giornale d’Italia.



















