Por Chiara Lombardi — Em um panorama artístico que precisa cada vez mais de nervo e de perguntas, a exposição Tensioni Cromatiche surge como um convite a olhar o que não é óbvio. A partir de 24 de janeiro de 2026, em Varese, a CathArt Gallery reúne as poéticas aparentemente antitéticas de Doriano Marocca e Giuseppe Pavia. Dois percursos de abstração que se encontram num campo de atrito produtivo, onde a tela não consola: ela incide, provoca e acorda.
O que une esses artistas é uma urgência expressiva — a vontade de fazer do gesto criativo um contrapeso ao peso da existência, sem mediações suavizantes. Aqui, a matéria não é mero suporte; é corpo e acontecimento. As cromias se impõem como forças primordiais que invadem o espaço, tensionam o olhar e transformam o quadro em um palco de vibração contínua. No encontro entre controle e improvisação, nascem fricções que não buscam redenção, mas intensidade.
Marocca e Pavia compartilham uma visão onde disciplina e risco convivem sem anular um ao outro. A pintura nasce da dissonância: camadas que se sobrepõem, superfícies riscadas, veladuras que tensionam. Para Doriano Marocca, o pigmento funciona como um organismo vivo — estratificado, ferido, reordenado até transbordar os limites da tela. Giuseppe Pavia, por sua vez, parte de um controle da matéria para, deliberadamente, permitir que a gravidade, o fluxo e o gesto rompam o equilíbrio. Seus pigmentos correm, se equilibram e são interrompidos por um ato súbito — como a vida que insiste em escapar de qualquer domínio completo.
“Ainda é preciso ter caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante.” Esta máxima nietzschiana resume a temática da mostra: é no choque entre instinto e razão, na turbulência interna, que se acende a centelha criadora. O aparente desordenar converte-se em energia que molda formas, cores e afetos. Em Tensioni Cromatiche, dois estilos — distintos, complementares — cruzam seus códigos e oferecem ao público um roteiro escondido sobre o ato de criar.
A inauguração da CathArt Gallery marca o começo do calendário 2026 com uma curadoria de linha firme, que prioriza o risco e o intercâmbio autêntico com os artistas. A mostra é também enriquecida pela presença de Andrea Barretta — curador com trajetória consolidada no panorama das artes visuais contemporâneas. Recentemente envolvido na exposição “Il tempo di Warhol e la Pop Art” no Museo della Stampa de Soncino, Barretta já assinou projetos sobre Andy Warhol, Enrico Baj, Mimmo Rotella e Mario Schifano. Seu trabalho atraiu atenção internacional, incluindo o interesse do Metropolitan Museum de Nova York, e ele integra o comitê crítico do Catalogo dell’Arte Moderna da Mondadori.
Ver a exposição é aceitar se colocar diante de um espelho que devolve imagens fragmentadas do presente — a semiótica do viral, a memória comprimida, o roteiro oculto da sociedade. Tensioni Cromatiche não oferece respostas fáceis: pede atenção, silêncio e disposição ao desconforto. É uma experiência para quem entende que a arte contemporânea funciona como um campo de prova, onde o risco não é recurso estilístico, mas condição ontológica do fazer artístico.
Serviço: Exposição Tensioni Cromatiche — CathArt Gallery, Varese. Abertura em 24 de janeiro de 2026. Curadoria e participação especial de Andrea Barretta.






















