Por Chiara Lombardi — Espresso Italia
O despótico não é uma anomalia histórica, mas uma das formas pelas quais se manifesta o descompasso entre poder e sociedade. O que assusta hoje, especialmente no contexto árabe e palestino, não é apenas a presença de regimes incapazes ou vorazes, mas a transformação de amplos setores sociais numa entidade que espera o mudança como se o comando viesse de um corpo separado da vontade coletiva — como se o governante fosse uma entidade alheia aos impulsos e demandas da sociedade. O grande problema contemporâneo, então, deixa de ser apenas a corrupção do governo e passa a ser a posição que a sociedade ocupa nessa equação: é sujeito político ou receptor passivo de decisões?
Desde o nascimento do pensamento político moderno, grande parte do debate intelectual girou em torno de uma hipótese central: o poder não deriva apenas da força, mas de um consenso social organizado, aquilo que chamamos de contrato social. Esse contrato — escrito ou tácito — define o que os indivíduos cedem ao Estado e o que o Estado se compromete a garantir em retorno. Thomas Hobbes, com seu horizonte de medo e segurança, não advogava por uma tirania arbitrária, mas por um pacto que evitasse o caos. John Locke deslocou a legitimidade para a proteção dos direitos naturais, afirmando que um poder que falha nessa tutela perde sua razão de existir. Jean-Jacques Rousseau, por sua vez, colocou a soberania na vontade geral, alertando para o risco de reduzir a soberania à figura do governante ou a uma elite.
Essas ideias se tornaram história quando sociedades entenderam o contrato social como instrumento de responsabilização, não como exercício acadêmico. Na Inglaterra do século XVII, o choque entre rei e Parlamento foi mais que disputa de elites: foi a sociedade impondo limites ao poder. A Revolução Francesa, apesar de suas contradições, marcou a transferência simbólica da soberania do trono para a nação. E na experiência americana, as instituições foram cuidadosamente desenhadas para transformar teoria em prática — um roteiro institucional que buscava conter ambições e proteger direitos.
O ponto que veio a ser obscurecido, contudo, é que nenhum desses marcos teria persistido se não existisse uma sociedade ativa, organizada e exigente. O contrato social não é um documento que ganha vida própria; é o espelho das lutas, das mobilizações e das reivindicações que o povo realiza. Quando a sociedade recua, cede espaço à tecnocracia, ao populismo ou ao autoritarismo, o contrato se esvazia: direitos deixam de ser reivindicados e tornam-se concessões.
Hoje vivemos um momento em que as instituições e os meios de comunicação redesenham a relação entre Estado e indivíduo. A passividade pode tornar-se sistema: assistimos a uma semiótica do viral que substitui a deliberação pela emoção imediata, e a um cenário em que o roteiro oculto da política é escrito por quem controla narrativas e recursos. Para reenquadrar essa relação, não basta apontar falhas no governante; é preciso reconstruir a capacidade coletiva de reivindicar, articular demandas e transformar a vontade geral em prática sustentável.
Em última instância, o desafio é cultural antes de ser institucional. Recuperar o contrato social exige redes de solidariedade, educação cívica e formas de participação que não se limitem a esperar mudanças do alto. É um convite a ler novamente o pacto que nos governa — e a reescrevê‑lo quando necessário. Porque um contrato não lido ou não reclamado é, no fundo, um espelho embaçado do nosso tempo: revela menos do que deveria sobre quem somos e o que exigimos.






















