Chiara Lombardi — 02/01/2026
Em um tempo em que o espelho virou tela e a identidade se afirma em pixels, a máxima do moderno reaparece com uma reviravolta irônica: Selfie ergo sum. Nesta segunda parte da reflexão, convido o leitor a olhar o roteiro oculto da sociedade — aquele enredo que liga a filosofia de um século XVII às catástrofes morais e políticas do século XXI. O protagonista deste ensaio é Cartesio, e o cenário inclui ciência, fé, a guerra na Ucrânia e o que alguns chamam de genocídio palestino.

A tese central é provocadora, mas firme: a clareza e a evidência, pilares da ciência moderna, dependem — paradoxalmente — de um ato de fé. Cartesio inaugura um sistema em que a razão absoluta encontra seu limite num suspeito «gênio maligno» capaz de enganar as percepções mais elementares. Se tudo pode ser ilusão, a realidade implode: árvores, afetos, corpos e fronteiras perdem fundamento. É fácil, então, compreender por que a modernidade, moldada por esse mapa, produz formas de desligamento ético — do narcisismo do selfie ao solipsismo que transforma o outro em cena ou código.
Há na hipótese cartesiana o germe de uma psicopatologia civil: ao reduzir o corpo a objeto de investigação e o animal a máquina, legitima‑se uma visão instrumental do mundo. A consequência é dupla. Primeiro: a desvalorização do corpo e da empatia que o corpo exige; segundo: a naturalização da violência contra o outro, quando este passa a parecer menos humano ou apenas uma peça num mecanismo. Neste ponto, a conexão com a guerra na Ucrânia e com o sofrimento palestino não é apenas política, é semiótica: as narrativas que descrevem o inimigo como “outro” mecanizado abrem o espaço para a desumanização e para atos que, na prática, convertem a teoria cartesiana em uma ética da indiferença.
O passo do ceticismo cartesiano para a cultura do selfie é, em certa medida, previsível. Quando a existência do outro vira um ato de fé — e a garantia última das evidências repousa numa instância transcendental — o indivíduo contemporâneo pode legitimar afetos e hostilidades por atalhos que a tecnologia facilita: filtros que aniquilam a materialidade, bolhas informacionais que reafirmam convicções e algoritmos que encorajam a violência simbólica e real.
Fugir desse abismo exigiu, já em Descartes, uma solução religiosa: a bondade do Criador como fundamento da certeza. Mas essa saída teológica, hoje, perde efetividade diante de sistemas que naturalizam a mentira e transformam a simulação em política. A cultura do espetáculo e do imediatismo — do selfie que atesta a presença enquanto oculta a responsabilidade — funciona como uma lente que amplia patologias já prefiguradas pela filosofia moderna.
Como analista cultural, proponho que leamos esses fenômenos como um espelho do nosso tempo: a filosofia não é apenas teoria acadêmica, é roteiro de possibilidades éticas. Reconhecer a herança cartesiana nas nossas crises contemporâneas não é demonizar o pensamento crítico, é compreender que toda ferramenta intelectual pode virar arma simbólica se desconectada de uma ética que reafirme a corporalidade, a intersubjetividade e a responsabilidade histórica.
Em linguagem de cinema: se a modernidade escreveu um filme em que o protagonista era o sujeito racional, hoje vemos as cenas finais de um enredo que precisa de um reframe. Não se trata de reciclar a fé de Descartes mecanicamente, mas de reintroduzir o compromisso coletivo — a crença na realidade do outro e na dignidade do corpo — como condição de qualquer evidência que valha a pena defender.































