Por Chiara Lombardi — Há em Roma uma beleza que não aparece nos roteiros turísticos: é aquela que se constrói com mãos, utensílios e memórias. Em Segreti artigiani (Gagio Edizioni), Alessandro Rosi traça um mapa íntimo dessa paisagem artesanal, entrelaçando reportagem, guia e ensaio fotográfico para devolver visibilidade às oficinas que ainda sustentam o caráter da capital italiana.
O livro não é apenas um inventário; é um gesto afetivo. Rosi reuniu mais de 30 ateliês ao longo dos anos e selecionou 14 para esta edição — não pelos prêmios ou pela antiguidade da placa, mas pelas histórias que cada porta conserva. Em seu olhar, a cidade reemerge como um espelho do nosso tempo em miniatura: a rotina de um sapateiro que atende um cardeal e, dias depois, o vê no balcão de São Pedro como Papa; o odor da cola do restaurador Squatriti que toma as ruas próximas à piazza del Popolo; a cera de abelha modelada pelos cesellatori Mortet que ainda perfuma as vielas de piazza Navona.
Essas cenas funcionam como pequenos quadros em que o antigo e o contemporâneo se sobrepõem — o roteiro oculto de uma cidade que resiste à homogeneização tecnológica. Rosi não busca a nostalgia vazia; ele trabalha a memória como matéria-prima, mostrando que cada peça restaurada, cada placa gravada e cada doce tradicional são gestos de preservação cultural.
Entre os relatos revelados ao longo do livro, há episódios que parecem saídos de um roteiro. A imprensa da praça de Trevi, a mais antiga na União Europeia e mencionada por Rosi, ganhou nova visibilidade quando foi escolhida pela primeira-ministra Giorgia Meloni para a confecção de seus cartões pessoais — um vínculo curioso entre poder contemporâneo e tradição impressa. Nas páginas sobre os cesellatori Mortet, Rosi reconstitui uma história envolvendo Giulio Andreotti e a visita de Mikhail Gorbachev a Roma, quando se discutiu a produção de réplicas de fontes romanas como presente diplomático; uma dessas decisões foi tratada com a ironia típica da política italiana, revelando as pequenas performatividades que cercam a diplomacia.
O autor também dedica atenção ao prazer sensorial: as oficinas que fazem parte da rota incluem o biscottificio Innocenti, a Pasticceria di Zio e a inimitável chocolateira Moriondo e Gariglio, lembranças gustativas que comprovam como a gastronomia artesanal é parte integrante do patrimônio urbano. E há ainda menções a mestres como o chapelier Sandro, o marmoraro e o incisore, cuja ação sobre materiais — couro, mármore, metal — funciona como uma escrita física da cidade.
Rosi confessa que a seleção definitiva deixou fora nomes relevantes — por exemplo, Franchi Argentieri ficou para uma possível edição futura — o que reforça a ideia de que este livro é um ponto de partida, um convite para continuar o passeio. O leitor é chamado a procurar essas botteghe, a abrir portas e a escutar anedotas que atravessam gerações.
Como analista cultural, vejo em Segreti artigiani mais do que uma guia de curiosidades: trata-se de um reframe da realidade urbana, uma defesa velada de que artesanato e memória coletiva são componentes essenciais da identidade europeia. Em tempos em que a cidade se transforma sob pressões globais, esses ateliês funcionam como ilhas de resistência, como pequenos palcos onde se inventa — e se preserva — o roteiro da nossa convivência. Ler Rosi é, assim, assistir a um filme em câmera lenta sobre a própria Roma: cada take é uma oficina; cada close, uma história.
Para quem planeja caminhar pela capital, Segreti artigiani oferece mais do que endereços: oferece enquadramentos. E, como toda boa obra cultural, nos lembra que o turismo mais enriquecedor é aquele que permite entrar no labirinto dos ofícios e retornar com a percepção alterada, capaz de reconhecer na rotina de um artesão o eco cultural do passado e a promessa de continuidade.






















