Por Chiara Lombardi — Em um roteiro que mistura hagiografia e diagnóstico contemporâneo, surge uma pergunta quase cinematográfica: existe ainda espaço para milagres quando a universidade fala em “posse demoníaca“? A resposta histórica aponta para um nome que atravessa séculos: São Bartolomeu, nascido em Caná da Galileia, um dos doze apóstolos de Jesus e venerado na antiga tradição cristã como protetor de quem sofre de males que hoje a psiquiatria também tenta compreender.
A devoção ao apóstolo é antiga. No coração de Roma, na Isola Tiberina, ergue-se desde o século X uma basílica dedicada a ele — um cenário urbano que funciona como um espelho do nosso tempo: um lugar onde fé, memória e práticas de cura se encontram. E é justamente essa confluência que volta a ganhar relevo diante de um dado inesperado: em um compêndio de psicopatologia em uso nas faculdades, aparece a expressão “posse demoníaca” assinada por três nomes de peso na psiquiatria italiana — Luigi Janiri (do Policlinico Gemelli de Roma), Giovanni Martinotti e Massimo di Giannantonio. Todos docentes de Psiquiatria.
O efeito narrativo é imediato: se o vocabulário clínico reinstala a figura do demônio no léxico das aulas, talvez as intercessões dos santos não sejam apenas relíquias de um passado místico, mas testemunhos de como a cultura lida com o que escapa ao controle. A tradição não é tímida ao descrever as esferas de proteção atribuídas a São Bartolomeu. Segundo Alfredo Cattabiani, em seu livro “Santi d’Italia” (Rizzoli), o apóstolo é considerado patrono dos endemoniados, dos doentes de convulsões, enxaqueca, paralisia, varizes e distúrbios psíquicos; protege também as crianças dos “medos súbitos”.
Curiosamente, Cattabiani — figura que teve papel relevante na recepção literária de obras como O Senhor dos Anéis no mercado italiano — usa a biografia dos santos para mapear traços culturais. A vida apostólica de Bartolomeu é narrada nos Evangelhos sinóticos e em João, e sua trajetória missionária, conforme a Legenda aurea de Jacopo da Varazze, o leva da Arábia à Mesopotâmia, até a Armênia e mesmo à Índia, em episódios que parecem cortes de um filme épico: confrontos com entidades demoníacas, conversões em massa e, finalmente, um martírio trágico — decapitação e esquartejamento, segundo a tradição.
Uma das cenas lendárias mais evocativas conta a entrada do apóstolo em um templo onde a estátua de Astaroth abrigava um demônio, cuja ação foi imediatamente neutralizada. Em seguida, outro espírito, chamado Beiret, denunciou a impotência diante de Bartolomeu, atribuindo a paralisação de suas respostas à proteção angélica que o seguia. O rei Polimio da Armênia, sua corte e seu povo se converteram após testemunharem tais acontecimentos, até que a inimizade dos sacerdotes pagãos levou ao martírio do santo.
Ler essa narrativa hoje é ler o roteiro oculto da sociedade: em um momento em que os manuais clínicos reapresentam termos ancestrais, São Bartolomeu reaparece como figura simbólica — um personagem por onde passam as nossas tentativas de nomear o mal e de conceber possibilidades de cura. Se a era moderna retira o demônio da clínica, outras vezes o próprio vocabulário científico parece devolvê-lo ao imaginário.
O dia de festa do santo é 24 de agosto, uma data que convida à reflexão sobre continuidade e ruptura: como preservamos antigos repertórios de sentido enquanto a medicina avança? A interseção entre fé, cultura e ciência desenha aqui um reframe da realidade — e, como em um bom filme, a cena final fica aberta, exigindo do espectador uma interpretação que vá além da superfície.






















