No palco do Festival, onde a música costuma funcionar como um espelho do nosso tempo, a noite ganhou uma pausa entre história e erro. Durante uma entrevista emocionada com Gianna Pratesi, de 105 anos, a produção exibiu atrás da centenária uma grafia equivocada: no telão apareceu “Il 54 per cento alla Repupplica” — a primeira gaffe desta edição.
Convidada como “ospite d’onore” pelo diretor artístico, a senhora Pratesi falou sobre a memória familiar do referendum de 1946. “Eravamo sicuri in casa mia. Tutti di sinistra…”, respondeu quando questionada sobre em quem a família havia votado, e mais tarde completou com naturalidade: “Ma no, per la Repubblica. Tutti in famiglia l’abbiamo fatto. Finalmente le donne votavano”. O apresentador Carlo Conti aproveitou para reafirmar o tom cívico do momento: “Grazie a questa Repubblica che ci permette di essere liberi”.
A brecha textual — além do humor involuntário — abre terreno para uma leitura mais densa: por que um evento que homenageia os 80 anos da República comove e, ao mesmo tempo, tropeça na forma? A gaffe funciona como um pequeno defeito do roteiro público, um reframe da realidade que lembra que a memória coletiva é, também, feita de lapsos e de impressões gráficas que escorregam.
Durante a conversa, a senhora Pratesi ainda conseguiu um momento leve: revelou gostar das canções de Ornella Vanoni e cantou um trecho de “24mila baci”, de Adriano Celentano, conectando gerações em poucas notas. A imagem da idosa que recorda o voto feminino na prática republicana contrapõe-se à letra mal escrita no telão: um pequeno choque semântico que viralizou nas redes, agora parte do eco cultural do festival.
Do ponto de vista semiótico, o erro transforma-se em um sintoma do instante: o Festival de Sanremo, com sua aura glamorosa e ritualística, é também palco onde o passado é convocado e reescrito, às vezes literalmente. A escrita errada — “Repupplica” — ilustra como o ato simbólico de comemorar pode ser ao mesmo tempo reverente e descuidado, gerando uma imagem que permanece mais do que a própria entrevista.
Em termos de público, a cena é representativa do que chamo de “cenário de transformação”: a plateia vê ali não só uma celebridade centenária, mas a própria história nacional sendo trazida à tona com todas as suas contradições. A gafe, afinal, não apaga a mensagem de liberdade que Carlo Conti quis transmitir; ao contrário, enfatiza que a memória cívica precisa ser lembrada com atenção — inclusive na tipografia.
Enquanto as redes repercutem o deslize textual, fica a imagem de Gianna Pratesi como testemunha viva de um capítulo essencial da história italiana — e o telão, por um instante, como um pequeno espelho que reflete tanto a reverência quanto a fragilidade do ato de lembrar.






















