Por Chiara Lombardi — A dança de Roberto Bolle não é apenas espetáculo: é um espelho do nosso tempo, um roteiro onde o corpo reescreve a história entre disciplina e graça. Se seu corpo tivesse sido encontrado nas profundezas, poderia ser confundido com um Bronzo di Riace — uma escultura viva que atravessa a paisagem cultural italiana com a mesma poderosa presença de outrora.
Nascido em Casale Monferrato em 1975, Bolle tornou-se uma das maiores exportações culturais da Itália: o primeiro bailarino na história a ostentar simultaneamente o título de étoile do Teatro alla Scala de Milão e do American Ballet Theatre de Nova York. Aos 15 anos, o lendário Rudolf Nureyev o escolheu para o papel de Tadzio em “Morte em Veneza” — uma indicação precoce do destino, ainda que a escolha tenha sido recusada por causa da pouca idade.
Houve o preço da vocação: a separação precoce da família, a solidão das viagens e a exigência de horas infinitas diante do espelho e na barra. Mas também houve palco — e não apenas o tecido das cortinas tradicionais: Bolle bailou em cenários que são cartões-postais da memória coletiva, transformando sítios históricos em cenários coreográficos. Do Sagrato do Duomo de Milão à Piazza del Plebiscito em Nápoles, do Colosseo em Roma ao Valle dei Templi em Agrigento; dos jardins de Boboli ao Teatro Antico de Taormina, de Piazza San Marco até a extraordinária aparição na Praça de São Pedro diante de João Paulo II — cada apresentação foi um reframe da história pela dança.
Seu percurso artístico é marcado pela busca constante da perfeição, pela paixão e por uma disciplina quase ascética. “Não ter o peso da gravidade para um dançarino é o sonho” — uma frase que soa como manifesto: a dança é a tentativa humana de suspender a condição terrena. Desde o primeiro papel no espetáculo da Scuola della Scala — no “Carnevale degli Animali”, quando fez a rã — até duetos com estrelas de várias gerações, incluindo Carla Fracci, a trajetória de Bolle é também uma narrativa de transformação: do menino que dizia “quero ser bailarino” ao homem que assumiu múltiplos papéis na cena cultural.
Rejeitando limites estilísticos, Bolle transitou entre o clássico e o moderno — chegando a dançar sobre músicas improváveis, como as de Marilyn Manson — e fez da versatilidade um selo autoral. Cresceu como artista e como homem, mantendo uma relação franca com o público e um discurso público pautado pela simplicidade: “Tenho tido muito — não tenho arrependimentos”, ecoando a ideia de uma vida entregue à arte.
Além do palco, sua presença estende-se à solidariedade e à promoção cultural: projetos beneficentes, campanhas institucionais — foi protagonista de iniciativas da ENI para uma “energia nova” que dialoga com a dança — e livros e filmes que ampliam sua voz para além da técnica. Um dos momentos cúspides foi a manhã de verão no Arco della Pace, em Milão, quando duas mil e duzentas adolescentes, vestidas de branco e vermelho e desconectadas por um momento dos celulares, responderam ao chamado de On Dance, numa coreografia coletiva que reafirmou a dança como polo de sociabilidade e transformação.
O que torna Bolle uma figura tão singular é essa combinação: musculatura e pensamento, espetáculo e responsabilidade social, disciplina e uma forma de renascimento contínuo. Sua carreira é uma sequência de cenas que, juntas, compõem um filme sobre resistência estética e compromisso cultural — um espetáculo onde o corpo atua como memória e a dança, como política de beleza.
Em tempos em que o entretenimento tende a se dissolver em instantaneidade, a trajetória de Bolle lembra que a dança permanece um lugar de aprofundamento: um palco onde se diz quem somos, e quem podemos ser, quando aceitamos o esforço do ofício. É isso que faz dele, ainda hoje, uma imagem potente no imaginário cultural italiano e internacional.






















