Robert Mapplethorpe desembarca em Milão com uma retrospectiva que promete ser espelho do nosso tempo e reframe da história da fotografia contemporânea. A exposição Robert Mapplethorpe. Le forme del desiderio, aberta ao público no Palazzo Reale de 29 de janeiro a 17 de maio de 2026, apresenta mais de duzentas imagens que mapeiam a evolução formal e estética de um dos nomes mais controversos e influentes da arte fotográfica norte-americana.
Organizada como o segundo capítulo de uma trilogia dedicada ao conceito de “forma”, a mostra oferece um percurso em seis seções temáticas: retratos e autorretratos, os primeiros colagens, naturezas-mortas, fotografias de nu e outras categorias que atravessam a carreira de Mapplethorpe. Essa curadoria propõe um diálogo entre forma e desejo, entre a disciplina técnica e a imaginação erótica — um roteiro oculto da sociedade que a fotografia ajuda a revelar.
No centro da curadoria está a obsessão de Mapplethorpe pela luz como instrumento escultórico: ele não apenas registra corpos e rostos, mas os esculpe com claridade e sombra, transformando o real num simulacro estético. As imagens de nudez e de natureza-morta dialogam com retratos de figuras do zeitgeist do século XX, colocando o público frente a frente com protagonistas da cultura pop, como Andy Warhol e Yoko Ono.
Uma das seções mais íntimas investiga a relação do fotógrafo com duas musas que marcaram sua vida e obra: a cantora Patti Smith e a bodybuilder Lisa Lyon. Nessas séries, o visitante percebe não apenas a influência recíproca entre artista e modelo, mas também como Mapplethorpe usou a câmera para compor narrativas de identidade, desejo e performance — a semiótica do viral antes mesmo do viral existir.
Os autorretratos reunidos na exposição funcionam como um diário visual: do jovem que experimenta a imagem de si mesmo até as composições finais, antecedendo sua morte em 1989, eles testemunham uma trajetória de autoconstrução. Ver essas fotografias em sequência é assistir a um processo de invenção da própria imagem — como se o artista montasse um filme íntimo, quadro a quadro.
Para o público de Palazzo Reale, a mostra é mais que um compêndio biográfico: é uma oportunidade de refletir sobre como a fotografia modela memórias coletivas e pessoais. A seleção das obras, além de demonstrar a maestria técnica de Mapplethorpe, convida o visitante a se interrogar sobre o papel do belo e do erótico na formação de um imaginário cultural.
Em termos curatoriais, a exposição funciona como um cenário de transformação: cada sala oferece um ângulo distinto do artista, permitindo que o espectador percorra espacialmente as metamorfoses do seu olhar. Essa é uma mostra que fala tanto ao aficionado pela história da fotografia quanto ao observador curioso que busca entender o porquê por trás do fenômeno Mapplethorpe.
Horários, bilhetes e informações práticas podem ser consultados no site do Palazzo Reale. Para quem estiver em Milão, vale a pena reservar tempo para atravessar essas imagens — não apenas para ver, mas para sentir esse eco cultural que ainda reverbera no presente.






















