Por Chiara Lombardi — Em uma cena que parece saída de um filme em que objetos históricos renascem sob a luz correta, a urna etrusca conhecida como Bottarone recuperou seu cromatismo original e a luminosidade que encantou arqueólogos e restauradores. O trabalho de conservação devolveu o brilho e a intensidade das cores do alabastro que cobrem a figura do casal esculpido há cerca de 2.400 anos.
Há sessenta anos — na dramática enchente de 1966 do Arno — o Museu Arqueológico Nacional de Florença sofreu danos severos: o lodo invadiu salas, ultrapassou dois metros de altura e devastou o laboratório de restauro, o arquivo fotográfico e valiosos testemunhos da civilização etrusca. A história da urna do Bottarone aproxima esse trauma coletivo do presente reconstrutor, transformando destruição em ação de salvaguarda e memória.
No âmbito do evento tourismA 2026 — Salone Archeologia e Turismo Culturale, promovido pela revista “Archeologia Viva” (Giunti Editore), o Museu Arqueológico Nacional de Florença apresenta, em primeira exibição, a mostra “Os cores do alabastro. O restauro da Urna do Bottarone a sessenta anos da enchente de Florença”. A exposição acontece no Palazzo dei Congressi de Florença, de sexta-feira, 27 de fevereiro, até domingo, 1º de março, das 9h às 18h, com entrada gratuita.
O restauro, executado por Daniela Manna e guiado por um projeto científico sob a supervisão de Barbara Arbeid, Giulia Basilissi e Mario Iozzo, foi possível graças ao apoio do Escritório Federal de Cultura da Suíça. A curadoria da mostra é de Daniele Federico Maras, Barbara Arbeid e Giulia Basilissi, com apoio da Embaixada da Suíça na Itália. O espaço expositivo, assinado pelo estúdio Deferrari+Modesti em colaboração com o neo.lab, foi pensado para valorizar tanto a obra quanto a narrativa do seu resgate.
Nas palavras de Daniele Federico Maras, diretor do museu: “A urna do Bottarone representa um experimento de restauro bem-sucedido, fruto de colaboração multidisciplinar, recursos públicos e fundos internacionais. É uma excelência que traduz uma mensagem positiva para o futuro do patrimônio: da catástrofe à nova vida do objeto e do Museu”. Essa declaração funciona como um refrão otimista, lembrando que o patrimônio cultural vive também de reencontros e reescritas.
Datada entre 425 e 380 a.C., a urna foi esculpida em alabastro branco com veios acinzentados. Sua descoberta ocorreu em 1864, nas imediações de Bottarone (ou Butarone), perto de Città della Pieve; passou pelas coleções de Giorgio Taccini — citado pelo viajante inglês George Dennis — e foi adquirida pelo colecionador florentino Giuseppe Pacini, antes de entrar, em 1887, nas coleções do Museu Arqueológico Nacional de Florença (número de inventário 73577).
O elemento mais surpreendente no conjunto é a tampa esculpida com a representação de um casal de marido e mulher em abraço. Trata-se de um motivo inusitado no repertório funerário de Chiusi para a época, onde o hábito comum era retratar o defunto acompanhado por uma figura feminina alada — um demônio protetor. Esse abraço pétreo reconstrói não só anatomia, mas afetos: é um espelho do nosso tempo que nos lembra como os laços humanos eram representados e, sobretudo, preservados pela arte funerária.
Além de restituir pigmentos e superfícies, o projeto abre uma janela para discutir o papel do restauro como diálogo entre técnica, ciência e política cultural internacional. A urna do Bottarone volta a nos falar em cores, e sua exposição temporária funciona como um convite a refletir sobre a memória que escolhemos preservar e a forma como reconstruímos narrativas coletivas.






















