Por Chiara Lombardi — No cruzamento entre memória gustativa e cena intelectual, surge a figura de Rachele Padovan, a cozinheira ampezzana que, ao longo do século XX, fez de sua casa em Cortina um verdadeiro palco de encontros entre escritores, artistas e editores. Em 2026, no ano do 110º aniversário de seu nascimento, essa história é recriada no podcast Parole nel Ven(e)to. Rachele Padovan e la Cortina dei letterati buongustai, uma produção de Madagascar Communication com o contributo della Regione del Veneto.
O projeto, dividido em onze episódios, parte da emblemática temporada olímpica de 1956 para articular uma narrativa que é simultaneamente gastronômica e literária. Sob a voz guia de Silvia Fiore Scarabello, o podcast entretece memórias familiares, depoimentos e aromas — com a curadoria de lembranças trazidas por Mina Buscicchio Balsamo, neta e guardiã do arquivo afetivo de Rachele.
Ao redor do focolare de Rachele passaram nomes como Andrea Zanzotto, Dino Buzzati, Giovanni Comisso, Ernest Hemingway, Goffredo Parise, Neri Pozza, Filippo de Pisis, Franco Zeffirelli e Vittorio Gassman. Esses encontros não foram somente passeios sociais: eram diálogos que transformavam a cozinha em sala de ensaio para ideias — a cozinha como espelho do nosso tempo e rito de circulação intelectual.
Paralelamente ao circuito literário, Rachele codificou um repertório culinário que hoje é legado. O seu livro, La Cucina Ampezzana, hoje reeditado pela Tarka Edizioni, reúne um roteiro de sabores que vai do radicchio trevigiano aos bigoli padovani, do bacalà vicentino ao storione in umido del Polesine, e passa pelo lesso con pearà veronese e as frittole veneziane. Há ainda os casunziei, as zuppe, o strudel e a selvaggina — pratos que funcionam como cenas sensoriais, capazes de reconstituir paisagens e estações do Veneto.
O podcast já disponibilizou os primeiros cinco episódios nas principais plataformas de streaming; a segunda parte será lançada em 5 de março, sincronizando-se com a atmosfera cultural dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Invernali Milano Cortina 2026. A escolha cronológica e temática não é casual: a narrativa reconstrói a formação de Rachele, seus encontros juvenis, a efervescência literária de Cortina no século XX e a ponte constante com as províncias venetas, onde cada receita é também um documento social.
Há uma dimensão antropológica essencial nessa reconstituição: Rachele Padovan foi responsável por transformar um saber doméstico — até então amplamente oral — em patrimônio compartilhado. O podcast traça mapas que vão da Treviso do poeta Andrea Zanzotto à Padova do gastrônomo Giuseppe Maffioli; da Vicenza narrada por Goffredo Parise ao Polesine de Giovanni Comisso e Gian Antonio Cibotto; de Veneza, frequentada por Hemingway, à Verona das aventuras de Emilio Salgari, até a Belluno visionária de Dino Buzzati. Cada episódio funciona como um plano-sequência que mistura biografia, topografia e tradição culinária.
Como em um filme bem dirigido, o podcast convida o ouvinte a ajustar o enquadramento: não se trata apenas de listar convidados ou receitas, mas de entender por que a cozinha de Rachele foi um dispositivo de sociabilidade e criação cultural. É um reframe da realidade em que pratos e palavras se reciprocamente iluminam — uma semiótica do viral literário e gustativo.
Para os que buscam compreender o roteiro oculto da sociedade italiana do século XX, a história de Rachele Padovan é um convite a ouvir as narrativas que atravessam o paladar e o pensamento. O podcast é, assim, mais do que memória: é um mapa sensorial e crítico do Veneto que continua a falar.






















