Chiara Lombardi — Há romances que se contentam em contar uma história; outros, como o novo livro de Eugenio Cardi, convidam o leitor a entrar num cenário que funciona como espelho: não apenas refletindo personagens, mas revelando o roteiro oculto de uma época. Quell’estate a Tangeri – Derive di seduzione esistenziale (Santelli Editore, 2026) sucede como uma fábula moderna ambientada na cidade-limite onde Europa e África se encaram através de um estreito, e onde o Mediterrâneo encontra o Atlântico.
O protagonista, Pierre Bernheim, tem vinte anos, o tédio de uma juventude dourada e uma vida no elegante bairro do Marais que lhe fica estreita como um figurino. Filho do cônsul geral francês, é enviado contra sua vontade a Tânger — um exílio diplomático que, sob o sol africano, se transforma numa estação de rituais, deslizes e aprendizados. Cardi constrói aqui um romance que é, ao mesmo tempo, coming-of-age e conto de sedução: uma câmera que foca o íntimo dos encontros e o mapa sensorial de uma cidade viva.
No centro emocional do livro estão três mulheres que funcionam como espelhos e abismos para Pierre. Camille Valois é a provocação em carne e osso: filha de industriais parisienses, enfant terrible da alta sociedade, com um sorriso de diamante e uma presença de publicidade que a torna conhecida. Ela arrasta Pierre para jogos de atração e frustração, e é por trás dessa máscara que aflora uma fragilidade surpreendente — um disfarce dramático que revela o preço da imagem.
Mercedes, filha do cônsul espanhol, incorpora a elegância calculada. Alta, loira, com olhos verdes que parecem falsamente serenos, ela representa uma ponte entre o desejo europeu e o temor do que é desconhecido. Com Mercedes, Pierre vive um relacionamento mais maduro: há reciprocidade, possibilidade de vulnerabilidade e menos artifício.
E então surge Yasmine, guia turística marroquina, arquétipo da autenticidade. Ela não seduz pela manipulação; simplesmente existe com uma naturalidade que desmonta a superficialidade europeia. É por meio dela que os personagens — e o leitor — descobrem a verdadeira Tânger: os rituais gnawa, a medina noturna, os segredos dos becos que não constam nos cartões-postais.
Mas o verdadeiro protagonista é a própria cidade. Tânger aqui respira, palpita e atua como cenário e personagem — dualidade perfeita de um lugar que abriga recepções diplomáticas de dia e clubes de contrabando e expatriação de noite. A cidade diurna exibe jardins coloniais, protocolos e sorrisos treinados; a cidade noturna revela o Tangerine, um local onde as máscaras caem e os desejos emergem sem censura. Essa dicotomia cria um campo de contradições onde identidades se refazem e verdades, até então encobertas, vêm à tona.
Cardi escreve com economia e precisão: sua prosa lembra um enquadramento cinematográfico, ora longas panorâmicas sobre a paisagem cultural, ora closes implacáveis sobre vontades íntimas. O romance funciona como um espelho do nosso tempo, um roteiro de transformação em que a sedução é tanto performativa quanto reveladora. A leitura provoca a pergunta — para além da trama: o que a Europa vê quando se mira nas margens da África? E que tipo de identidade emerge desse encontro?
Quell’estate a Tangeri é, portanto, um convite a uma deriva existencial onde a sedução, a identidade e as verdades ocultas se entrelaçam. É um livro que se lê como se assistisse a um filme de câmera lenta: cada gesto importa, cada paisagem conta, e a cidade, com sua semiótica própria, transforma o leitor em espectador e cúmplice.



















