Nas últimas horas, uma janela foi aberta sobre o funcionamento íntimo dos ecossistemas digitais — e aquilo que vimos não é apenas código: é uma arquitetura de formação de pessoas. Elon Musk publicou no GitHub um mapeamento que, de forma crua e técnica, mostra como um post viaja até o seu feed no site X (ex-Twitter). O diagrama expõe, com clareza quase clínica, como a Inteligência Artificial vasculha sinais, monta perfis e oferece conteúdo que, aos poucos, nos reconstrói.
O funcionamento é simples e ao mesmo tempo profundo. A plataforma analisa a sua cronologia: o que você clica, o que você prefere, o que compartilha. Examina as postagens das pessoas com quem você interage e mesmo conteúdos de contas que você não segue. Busca padrões do que poderia atrair sua atenção. Filtra material indesejado — spam, violência — e então classifica tudo segundo a probabilidade de que você interaja: resposta, curtida, compartilhamento.
Por trás dessa máquina está o modelo de IA chamado Grok. O aspecto inquietante é que ele aprende relevância a partir das sequências de ações dos usuários sem que um engenheiro diga o que é importante. A curva se fecha num ciclo contínuo: você age, a IA Grok aprende, a IA propõe, você reage; e assim seguimos. Não é uma fábula distópica: agora existe uma prova técnica.
O que isso significa para a ideia de identidade? Nossa face interior — as preferências, as inclinações, os medos — não está mais protegida por uma senha. Ela é desenhada pelas impressões digitais de comportamento que deixamos online. A IA não apenas nos perfila: ela constrói, de forma preditiva e construtiva, o que vemos e, consequentemente, quem nos tornamos. Em outras palavras, algoritmos não são apenas ferramentas de recomendação; são autores silenciosos de expectativas e crenças.
Imagine milhões de horas ao longo de um ano, consumidas sob essa curadoria invisível. Imagine um jovem que cresce com esse alimento digital: a paisagem interna dele será, em parte, colhida por máquinas que avaliam sinais de atenção. A vida cotidiana muda no ritmo dessa colheita. Hoje, não há discussão mais urgente: nenhuma guerra, conspiração ou acidente supera a relevância desse sinal.
Chamam isso, alguns, de transição para um sistema neoautoritário. Não é só retórica: quando mecanismos técnicos se tornam capazes de moldar comportamentos e identidades sem transparência e sem responsabilização, estamos diante de uma nova forma de poder. A caixa preta foi aberta; temos a prova técnica de que a tecnologia não apenas observa, mas plasma.
Como caminhante que sente a respiração da cidade e o tempo interno do corpo, convido à reflexão: estamos prontos para viver sob um céu desenhado por algoritmos? Podemos aceitar que nossas escolhas emergam mais de propostas calculadas do que de desejos nascidos em nós? A pergunta é tanto política quanto poética, pois toca as raízes do bem-estar coletivo.
Não proponho pânico, mas atenção sensível. Precisamos de transparência, de regulação que não seja um gesto frio, de cultura digital que eduque para a liberdade. Porque, se permitirmos que sistemas de IA definam quem somos sem que o saibamos, corremos o risco de trocar a singularidade humana pela previsibilidade calculada.
O debate já saiu do campo das sensações e entrou no terreno técnico. Agora temos uma escolha: aceitar silenciosamente os desenhos que nos são oferecidos ou reivindicar que a tecnologia sirva ao nosso florescer, não à nossa domesticação.






















