Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece reinterpretar o roteiro da história cultural italiana, o Prêmio Strega completa 80 anos e anuncia uma edição comemorativa repleta de novidades. A final, marcada para 8 de julho, muda de endereço: em vez do tradicional Ninfeo di Villa Giulia, a cerimônia será realizada no Campidoglio, palco simbólico da cidade de Roma — uma mudança que funciona como um plano de câmera para um novo enquadramento do prêmio no espaço público.
As celebrações, consolidadas sob o claim “Quasi una vita“, título do livro de Corrado Alvaro premiado em 1951, não se limitam à solenidade: há uma mostra, uma rassegna cinematográfica, encontros com finalistas em Città del Messico e Guadalajara e um ambicioso projeto de digitalização do Fondo Premio Strega (1947–1986) e do Fondo Maria Bellonci. A combinação entre memória analógica e arquivos digitais revela o interesse em transformar acervos em dispositivos de interpretação do presente — a semiótica do arquivo como espelho do nosso tempo.
Giovanni Solimine, presidente da Fondazione Bellonci, descreveu a efeméride como uma oportunidade para repensar não só a trajetória do prêmio, mas também “la produzione letteraria italiana” ao longo de oito décadas. Solimine recorda ainda a origem do prêmio, nascido em 1947, quando Roma tentava recompor seu paisaje depois da guerra. A lembrança de que a primeira reunião dos Amici della Domenica ocorreu cinco dias após a libertação da cidade funciona como um ponto de partida para compreender o Prêmio Strega como testemunha e agente das transformações sociais e culturais da Itália pós‑guerra.
Essa leitura histórica está alinhada à escolha do Campidoglio para a final: um gesto simbólico que aproxima o prêmio do coração institucional e urbano de Roma, reforçando seu vínculo com a cidade sem reduzi‑lo a um fenômeno exclusivamente romano. Já havia precedentes de deslocamentos excepcionais: a 70ª edição foi realizada no Auditorium, em um momento atípico para a cerimônia.
No âmbito expositivo, a mostra organizada por Maria Luisa Frisa e Mario Lupano será inaugurada no dia 29 de abril no MACRO — Museo d’Arte Contemporanea di Roma (Via Nizza, 138). Produzida em colaboração com Bper Banca e a Camera Nazionale della Moda Italiana, a exposição promete mapear 80 anos de estética e prática cultural em torno do prêmio, como se cada objeto e cartaz reconstituísse fragmentos de um roteiro coletivo.
Além das iniciativas locais, o festival expande sua geografia: encontros e apresentações com os finalistas estão programados para a Cidade do México e Guadalajara, numa estratégia que reforça a dimensão internacional do prêmio e abre janelas para diálogos transatlânticos. A proposta de digitalizar os fundos históricos, por sua vez, sinaliza uma vontade de democratizar o acesso e permitir interpretações renovadas por pesquisadores e leitores mundo afora.
Massimiliano Smeriglio, assessor de Cultura do Comune di Roma, afirmou que é uma honra manter e renovar essa parceria histórica, lembrando que o Prêmio Strega funciona como uma lente de leitura sobre as mudanças na sociedade italiana. A programação dos 80 anos transforma a celebração em um observatório: não apenas para festejar, mas para interrogar os modos como a literatura e os rituais culturais reconfiguram a memória coletiva.
Em suma, este aniversário não é apenas uma festa institucional, mas um reframe da realidade cultural — um convite a ler o passado com olhos de cena e a reconhecer, nos objetos e eventos, pistas do roteiro oculto que moldou gostos e práticas ao longo de quase uma vida.






















