Por Chiara Lombardi — Em um gesto que é ao mesmo tempo memória e reinvenção, a Fundação Franco Zeffirelli, sediada em Florença, anuncia a primeira edição do Premio Franco Zeffirelli. A cerimônia acontecerá no dia 16 de fevereiro, no emblemático Salone dei Cinquecento de Palazzo Vecchio, num cenário que parece saído de um dos enquadramentos barrocos tão caros ao próprio Zeffirelli.
O prêmio, concebido em colaboração com o Trust Zeffirelli para o Centro Internacional das Artes e do Espetáculo, nasce para perpetuar o ensino e a memória do Maestro. Não é apenas um tributo: é um reframe da sua influência, um espelho do nosso tempo que ilumina quem, como ele, moldou a paisagem do teatro, do cinema e da televisão.
Entre os laureados desta primeira edição estão dois nomes intimamente ligados ao imaginário de Zeffirelli: o tenor Placido Domingo e o ator Robert Powell, que receberão Prêmios Especiais. Domingo, colaborador de longa data do Maestro, foi protagonista de montagens operísticas memoráveis — de Otello a Calaf — e do filme La Traviata (1982), compartilhando a tela com Teresa Stratas. Já Powell eternizou-se na história da televisão através da encarnação de Gesù em Jesus de Nazaré (1977), obra que advoga a visão humanista tão cara a Zeffirelli.
O prêmio para a Regia será entregue a Marco Bellocchio, cuja obra se movimenta entre a crítica social e uma estética narrativa profundamente europeia. Entre as menções, destaca-se que uma minissérie sobre Enzo Tortora, Portobello, dirigida por Bellocchio, está prestes a ir ao ar — um sinal de como o cinema e a televisão continuam a dialogar com a história recente e a memória coletiva.
A composição do júri também sublinha a ambição internacional do prêmio: presidida por Raimonda Gaetani, conta com nomes como Madeline Fontaine, Lindy Hemming, Jean Rabasse e Inbal Weinberg. Os reconhecimentos por setores artísticos serão atribuídos por essa bancada de criadores e cenógrafos cujo trabalho atravessa fronteiras e linguagens.
O evento — que terá uma premiação seguida por jantar de gala — terá a presença da prefeita Sara Funaro e do governador da Toscana, Eugenio Giani. A sede da Fundação, no barroco Palazzo San Firenze, e o próprio Salone dei Cinquecento compõem um cenário quase ‘zeffirelliano’: cômodos e perspectivas que parecem escrever uma mise-en-scène da própria memória.
É impossível falar de Zeffirelli sem lembrar sua última aparição pública, em 2018, quando apresentou o inédito projeto de um Rigoletto intimista — previsto para estrear na Royal Opera House de Muscat em 2020 — com a voz já reduzida a sussurro, mas o olhar ainda vibrante. Sete meses depois, em 15 de junho de 2019, o Maestro se foi. Hoje, a criação deste prêmio funciona como um gesto de continuidade: não apenas conservar um legado, mas provocar novos diálogos entre gerações.
O Premio Franco Zeffirelli nasce assim como um roteiro oculto da sociedade cultural contemporânea — uma premiação que lança luz sobre artistas que, como espelhos, devolvem à arte e ao público reflexos de humanidade, coragem estética e memória crítica.
Detalhes sobre a lista completa de premiados por categoria serão divulgados pela Fundação nas próximas semanas. A cerimônia do dia 16 de fevereiro promete ser mais que uma noite de troféus: será um cenário de transformação onde passado e presente se encontram em cena.



















