Faltam poucos dias para a abertura do Festival de Sanremo e volta a circular o debate sobre reconhecimento e memória na música italiana. O compositor e cofundador dos Matia Bazar, Piero Cassano, será agraciado com o prêmio Dietrolequinte 2026, entregue no Victory Morgana durante o press Golden Gala. Aos 77 anos, o genovês revisita uma carreira com presença marcante no palco do Ariston: foram 21 participações, incluindo vitórias ao lado dos Matia Bazar.
Em entrevista à AGI, Piero Cassano fala com serenidade e algum tom de saudade sobre o que representa hoje o maior festival italiano. “O Sanremo é, sem dúvida, um trampolim — mas pode também ser um ponto de chegada”, observa. Na sua leitura, o festival cumpre um duplo papel: lançar novos nomes e confirmá-los, ao mesmo tempo em que, por vezes, recebe artistas cuja grandeza extrapola a vitrine do Ariston.
Ao comentar nomes contemporâneos, Cassano traz uma reflexão pontual sobre Giorgia: “Pessoalmente, não creio que ela precisasse de mais um Sanremo; é uma artista completa, que deve muito ao festival no início da carreira, mas cuja voz e presença já pertencem a um palco mais amplo. No ano passado, ela participou porque tinha um tema extraordinário — cantado por toda a Itália — e, talvez, fosse o Sanremo que precisasse de uma voz como a dela”.
Fiel a um percurso autoral e produtor que sempre buscou caminhos menos óbvios, Cassano revela projetos que olham para o futuro sem abandonar a tradição. Entre os nomes que acompanha estão dois jovens artistas que sintetizam seu interesse por experimentalismo e raiz: o tenor lírico Matteo Macchioni e a cantautora calabresa Cecilia Larosa.
Com Matteo Macchioni, explica, o trabalho é de cunho crossover — “não lírico no sentido estrito, mas uma ponte entre repertórios, com ele cantando canções próprias e do repertório popular, e até performando os Queen na tonalidade original de Freddie Mercury.” Já Cecilia Larosa surge como descoberta de um lugar íntimo: “é uma cantora e pianista formada em conservatório, com uma intuição de afinação e um coração artístico raro. Há nela uma teimosia criativa que me faz acreditar: é única.”
Ao olhar para a trajetória pessoal e para o papel das instituições culturais, Cassano propõe um reframe: o Sanremo deveria voltar a privilegiar a arte como experiência transformadora — não apenas como espetáculo marcado por tendências rápidas. É um convite para ler o festival como um espelho do nosso tempo, mas também como um roteiro possível para o futuro da música italiana: onde memória e descoberta convivem e se fortalecem.
O prêmio Dietrolequinte 2026 é, nesses termos, mais que um reconhecimento individual: é uma chamada de atenção para que o palco continue sendo espaço de arte, repertório e risco criativo — o cenário onde, muitas vezes, nascem as vozes que depois definem uma era.






















