Por Chiara Lombardi (reedição do texto de Alessandra Giulia) — 11 de janeiro de 2026
Começo com um aforisma que ecoa como um cartaz de cinema antigo: «A liberdade innanzi tutto e sopra tutto» — Benedetto Croce. Essa invocação ao princípio civil traz, porém, a tensão que percorre o poema original: o conflito entre fé, memória e a aparência de normalidade nas sociedades contemporâneas.
Na lente mitológica do mito de Orfeu e Eurídice, o autor do poema traça um paralelo inquietante: o amor que desafia a morte e a capacidade humana de carregar, como registro moral, as feridas coletivas. Mas a imagem mais dura é outra — a de um lamento que atravessa a oração mais íntima: Padre nosso, que «questa rabbia mi brucia e mi consuma». É aí que o texto se converte em espelho do nosso tempo: a raiva não é apenas emoção, é sintoma.
Esse fogo interior denuncia a presença do horror — ou, como diz o autor, o Orrore — em mundos que se autoproclamam democráticos. A contradição é imediata: como a democracia pode coexistir com a indiferença frente a massacres, guerras e genocídios? O poema não oferece respostas fáceis; aponta, isso sim, para o silêncio cúmplice que permite que estruturas de poder funcionem como cena e produtoras de consenso.
Há, no trecho que clama por pão e trabalho, uma crítica social direta: «finché il mio tempo non viene prosciugato dal lavoro, mentre con le poche monete che il padrone mi sgancia, metto il pane nella pancia». Essa imagem republicana — de indivíduos sacrificando tempo e dignidade para sustentar uma economia — desenha o roteiro oculto de uma sociedade que naturaliza privilégios. As palavras privilégio, furto e justiça reaparecem como títulos de cena numa peça cujo elenco inclui a indústria de armas e os engenheiros do consenso.
Como analista cultural, vejo nesse texto a semiótica do viral: as linhas poéticas transformam-se em lente crítica sobre a forma como a mídia e as instituições encenam o normal. A fila de trabalhadores de gravata, prontos a mover-se como operadores para a maior indústria bélica, é imagem de um espetáculo moderno — elegante, porém letal. O poema provoca: «Cosa penserà il buon Dio. Dei suoi soldati?» — interrogação que direciona o leitor ao centro do debate sobre fé, responsabilidade e memória histórica.
Não se trata apenas de condenar guerras e genocídios por motivos humanitários; trata-se de entender como essas violências se infiltram na tessitura democrática, corroendo promessas constitucionais e direitos. O autor convoca a consciência: a verdadeira cidadania exige mais do que orações; exige vigilância, memória e ação.
Ao final, o poema funciona como um espelho cultural — um chamado a reavaliar o roteiro coletivo, a reframe da realidade em que vivemos. Se a arte é um lugar de resistência, então a poesia aqui é cenografia moral: revela o backstage das decisões que definem vidas, corpos e futuros.






















