Oscar Wilde voltou a ser protagonista de um cenário que mistura memória e mercado: uma fotografia sua, capturada poucas horas após a morte, alcançou um preço recorde em leilão, confirmando como o relicário da cultura ainda mobiliza valores — sentimentais e econômicos. A casa de leilões Bonhams, em Londres, ofereceu ao público não apenas objetos, mas um verdadeiro percurso pela vida e pela imagem pública do escritor irlandês (1854-1900).
A venda, que reuniu peças vindas da coleção do bibliófilo britânico Jeremy Mason — mais de 500 itens ligados ao autor de O Retrato de Dorian Gray — totalizou cerca de 1,6 milhões de libras (aproximadamente 1,86 milhões de euros). Entre cartas, primeiras edições e fotografias, foi uma única imagem que dominou a narrativa do leilão: a última fotografia conhecida de Wilde, feita em 1900 pelo fotógrafo Maurice Gilbert, retratando o escritor deitado em uma camisa branca, cercado por ramos e flores. O lote alcançou 279.800 libras (cerca de 325.550 euros).
Essa foto funciona como um espelho do nosso tempo: a materialidade do luto e a obsessão pela preservação da imagem de uma figura que transbordou o próprio cânone literário. Não é por acaso que outros retratos fotográficos do acervo também despertaram interesse. As célebres imagens de 1882 assinadas por Napoleon Sarony, nas quais Wilde aparece como um dândi quase cinematográfico — jaqueta de veludo, calções de seda e pantufas com laços —, superaram expectativas. As duas ‘cabinet card’ foram vendidas por 7.040 e 6.144 libras, respectivamente, acima da estimativa máxima de 5.000 libras cada.
O leilão revelou ainda o vigor do mercado por manuscritos íntimos. Uma carta de 1895 para a crítica Ada Leverson — a enigmática “Sphinx” — saiu por 43.520 libras; outra de 1887, dirigida a Violet Fane e repleta de ironias sobre vegetarianismo, alcançou 44.800 libras. Uma missiva mais leve, com conselhos jocosos a Beatrice Faudel-Phillips sobre pontualidade e etiqueta, rendeu 38.400 libras, quase quatro vezes sua estimativa inicial.
As primeiras edições também brilharam: uma cópia de Salomé (1891), com dedicatória autógrafa em francês ao poeta Stuart Merrill, foi arrematada por 48.640 libras; e uma edição de 1891 de The Picture of Dorian Gray, assinada por Wilde, atingiu 23.040 libras, alinhada às previsões.
Por trás desses números, lê-se o roteiro oculto da vida de Wilde: talento e fama, seguidos por escândalo e queda. A trajetória do autor — dramaturgo aclamado e presença fulgurante na cena literária britânica — foi profundamente marcada pelo processo por “grave indecência” que o levou à prisão entre 1895 e 1897. A relação com Lord Alfred Douglas foi central nesse enredo judicial que abalou sua saúde, reputação e a própria imagem pública.
Enquanto o mundo do colecionismo transforma papéis e negativos em preços sonoros, estas peças permanecem também como catalisadores de uma reflexão cultural: por que preservamos rostos e palavras? O leilão da Bonhams não foi apenas uma transação; foi um reencontro com o eco cultural de Wilde, cuja vida continua a projetar sombras e reflexos sobre como a sociedade reinterpreta arte, escândalo e redenção.
Para leitores e estudiosos, o resultado da venda confirma uma certeza visceral — imagens e cartas são fragmentos narrativos que nos ajudam a reconstituir o enigma de um autor que viveu tão intensamente quanto escreveu. E, como em um bom filme, cada objeto remonta uma cena decisiva: Wilde, a sua estética e o preço que a história ainda paga por manter viva a sua imagem.



















