Chega às livrarias italianas em 31 de março, publicado pela primeira vez na Itália pela La nave di Teseo, o romance inédito de Orson Welles Un pezzo grosso (Collana Oceani, trad. Alberto Pezzotta, 208 págs.; preço: 18 euro). Esta edição nasce a partir do reencontro com uma cópia original em inglês encontrada no Fondo Welles do Museo Nazionale del Cinema di Torino, um achado que amplia nosso entendimento do imaginário e da liberdade criativa do autor.
Ao longo dessas páginas, Orson Welles desmonta, com uma ironia feroz, o mito da democracia “da esportação” e volta seu espelho crítico também ao próprio cinema que ajudou a contar essas narrativas. O resultado é um romance de ritmo vertiginoso, que combina equívocos, reviravoltas, diálogos cortantes e situações absurdas para compor uma sátira implacável do poder, do capitalismo global e de suas máscaras.
Na cena inicial — uma viagem de navio rumo a Malinha, uma pequena ilha do Mediterrâneo governada por uma ditadura — um encontro casual entre o jovem americano Joe Cutler, herdeiro de um magnata das bebidas, e Susie, que viaja para visitar o namorado ligado ao regime, desencadeia uma série de mal-entendidos. Um equívoco transforma Joe em uma suposta espionagem internacional e, em poucas horas, a ilha decide que a saída mais viável é fingir ser uma democracia.
Daí em diante, o romance se desenrola num turbilhão de conspirações, golpes, prisões, eleições improvisadas, bebidas misteriosas e paixões inesperadas. Un pezzo grosso é, ao mesmo tempo, uma paródia do thriller de espionagem e da comédia romântica: admirais grotescos, bispos filósofos, multinacionais de refrigerantes com poder desmedido, eleições-farsa e espiões imaginários povoam um cenário onde o grotesco revela o diagnóstico político e cultural de sua época.
Elisabetta Sgarbi, diretora-geral da La nave di Teseo, agradeceu ao Museo del Cinema di Torino por confiar à editora o lançamento desta obra inédita na Itália, ressaltando que o romance representa um enriquecimento decisivo para o catálogo, já repleto de títulos de autores e cineastas extraordinários.
Como observadora do tempo presente, digo que este livro funciona como um espelho do nosso tempo: Welles não se limita a contar uma história; ele reescreve os códigos do entretenimento para expor o roteiro oculto das relações entre cultura, poder e mercado. Ler Un pezzo grosso é assistir a uma projeção que, ao mesmo tempo, divierte e desconstrói — uma experiência que nos convida a refletir sobre o que permanece por trás das imagens que consumimos e das narrativas que exportamos.






















