Por Chiara Lombardi — Em um cenário onde esporte e cidade se refletem mutuamente, surge uma obra que age como um espelho do nosso tempo. Volta às prateleiras Scarpette Rosse. La storia dell’Olimpia Milano (Editora Limina, 272 páginas, €19,90), o livro de Werther Pedrazzi que celebra os 90 anos de uma das instituições mais iconográficas do basquete italiano e europeu: a Olimpia Milano. A edição incorpora ainda um texto inédito de Andrea Gentile, acrescentando uma camada contemporânea ao relato histórico.
O que Pedrazzi propõe não é apenas uma crônica de troféus, mas um reframe da memória coletiva. A narrativa começa em 1936, com a centelha acesa pela Triestina Milano, e passa pelo momento fundacional de 1947 quando, após a fusão com o Dopolavoro Borletti, nasce a verdadeira alma do clube: a Olimpia Milano. Desde então, o clube não foi só um time — foi um laboratório de ideias, talento e projeto civil, entrelaçado com as transformações sociais de Milão e da Itália do pós-guerra.
Pedrazzi, cronista do Corriere della Sera e do Dailybasket, e com passado de jogador e treinador, guia o leitor por uma epopeia que conjuga episódios de brilho e momentos de risco existencial. Ele remete a personagens que se tornaram arquétipos: a visão de Adolfo Bogoncelli, a liderança de Cesare Rubini, a contratação do grego Stephanidis e o apogeu dos ciclos vitoriosos com Dino Meneghin e Mike D’Antoni. Há ecos de outras figuras que ampliaram o imaginário do clube — a relação com Dan Peterson, a lembrança distante de Kobe Bryant como um espelho simbólico, e as performances memoráveis de Pittis, Fucka, Bodiroga e Gallinari.
A estrutura do livro alterna capítulos de glória com passagens mais duras, quando o basquete milanês pareceu à beira de um apagamento. E é aqui que reside, talvez, o roteiro oculto da história: a capacidade de renascer. Para Pedrazzi, o segredo da Olimpia Milano não está apenas no palmarés, mas na habilidade de transformar vitórias e derrotas em patrimônio simbólico — uma identidade compartilhada que ressoa na cidade e além-fronteiras.
Como analista cultural, vejo Scarpette Rosse como uma narrativa que ultrapassa o esporte e se coloca como um documento sobre memória, identidade e performance pública. O livro oferece ao leitor a sensação de estar assistindo a uma montagem teatral onde cada ato corresponde a uma década da cidade de Milão: mudanças urbanas, tensões políticas, heróis e anti-heróis. A voz de Pedrazzi é ao mesmo tempo testemunha e tradutora — alguém que transformou experiência direta em um panorama crítico e afetuoso.
Para os que amam história do esporte e para os leitores interessados em como instituições moldam e são moldadas pelo tempo, Scarpette Rosse funciona como um roteiro ilustrado do imaginário coletivo. Aos 90 anos, a Olimpia Milano permanece protagonista, convidando-nos a olhar além do placar e a ler, nas camadas do passado, o que ainda pode ser reinventado no futuro.





















