Com a assinatura afiada de quem observa o contemporâneo como se folheasse um roteiro em preparação, Corrado Nuzzo e Maria Di Biase estreiam nos palcos italianos com “Totalmente Incompatibili”, um espetáculo que parte da comédia para escavar o que resta — e o que falha — nas relações amorosas em plena era do individualismo.
O show tem início marcado para 16 de janeiro no Teatro dell’Aquila de Fermo e chega envolto na expectativa de quem vem de uma sequência de acertos: a dupla participou de “Delirio a due”, de Eugène Ionesco, dirigido por Giorgio Gallione, cujo percurso em dois anos de turnê ultrapassou a centena de apresentações e colecionou salas esgotadas. Parte dessa bagagem cênica — a capacidade de transformar contradição em riso — informa a nova criação.
Ao explicar a gênese da peça, Nuzzo e Di Biase revelam um ponto de partida prosaico e inquietante ao mesmo tempo: a sensação de que muitos dos amigos e colegas estão se separando, enquanto eles permanecem juntos. “Ou é azar, ou o ato de ficar junto virou um privilégio ainda pouco entendido”, dizem. O argumento ganha dimensão estatística quando recorrem ao Istat: projeções indicam que, em 2050, mais de 41% dos núcleos familiares italianos poderão ser compostos por uma só pessoa. A imagem é direta — ficar em casal começa a parecer um investimento de alto risco, quase um trading emocional.
Mas o texto do espetáculo não se limita ao diagnóstico. Em tom irônico e afetuoso, a dupla transforma a anedota íntima em metáfora cultural: em um mundo que eleva o individualismo, permanecer em um par pode ser um ato revolucionário. “Talvez um dia sejamos vistos como pandas e levados a um zoológico: as pessoas passarão e não acreditarão — ‘mas aqueles dois ainda se amam'”, arriscam, como quem aposta no absurdo para denunciar uma possível perda de hábitos sociais afetivos.
Sobre os próprios constrastes, assumem a contradição com delicadeza. “Somos totalmente incompatíveis — em tudo”, brincam, afirmando que seu amor foi não apenas cego, mas surdo a rótulos de afinidade. A imagem dos meias desencontradas — peças que se vestem por necessidade e acabam virando um distintivo — é o refrão espiritual da relação. Ainda assim, apontam as bases que os mantêm: os mesmos ideais, a mesma ironia e uma recíproca atração.
O espetáculo também dialoga com as inquietações das novas gerações. A Geração Z, dizem, faz menos sexo segundo dados e estudos, mas não por apatia: ela reexamina o corpo, o consenso, as formas de intimidade. “Cada geração enfrenta novos quebra-cabeças — um cubo de Rubik que a anterior só pode aplaudir das arquibancadas”, comenta a dupla, evocando a imagem do tempo como diretor e público simultâneo.
Quando o assunto é a durabilidade de um vínculo, Nuzzo e Di Biase trazem respostas que misturam prática e poesia cotidiana: paciência, humor, curiosidade permanente e pequenos rituais que reconstroem o laço a cada dia. No palco, essas rotinas ganham luz e ritmo, revelando que a convivência longa não é ausência de desafios, mas o exercício contínuo de se reinventar juntos.
Em suma, “Totalmente Incompatibili” promete ser mais do que uma sucessão de sketches: é um espelho do nosso tempo, uma semiótica do viral aplicada às relações íntimas. A peça convida o público a rir de si mesmo e a enxergar o roteiro oculto que orienta como amamos, brigamos e, por vezes, resistimos a um mundo que celebra a solidão.
Serviço: estreia em 16/01 no Teatro dell’Aquila (Fermo). Acompanhe as datas da turnê nos canais oficiais da dupla.



















