Uma seleção de lançamentos entre romances, ensaios e reportagens apresentada esta semana pela Adnkronos. Como observadora do zeitgeist, vejo esses títulos como espelhos do nosso tempo: reflexos que interrogam identidade, memória e os roteiros ocultos da sociedade.
La vecchia, romance escrito por Georges Simenon em 1959, volta às livrarias a partir de 27 de janeiro numa nova edição pela Adelphi, com tradução de Simona Mambrini. Paul Morand chegou a dizer, após ler a obra, que Simenon “não tinha jamais escrito nada de semelhante” — e a sensação permanece. Este livro funciona como um verdadeiro huis clos: a narrativa desenrola-se quase inteiramente dentro de um apartamento na Île Saint-Louis, em Paris, onde quatro mulheres se observam, se vigiam e, aos poucos, se corroem.
O centro do drama é a proprietária Sophie Émel, uma notória paraquedista cuja existência é marcada por excessos e álcool, e que divide o quarto com jovens de vira-latas destinos. Por capricho ou curiosidade, Sophie aceita receber a avó — uma octogenária temível que, antes de tudo, se barricou numa casa prestes a ser demolida, ameaçando atirar-se pela janela. Do encontro entre a jovem e a velha nasce um jogo de suspeitas e crueldades sutis que se espalha para a última amiga de Sophie e para a doméstica vigilante.
Simenon compõe, com mestria, um crescendo claustrofóbico e inquietante que desemboca inevitavelmente na violência. Na leitura que proponho, a casa funciona como um microcosmo: é o cenário de transformação onde se projetam medos geracionais, humilhações e a luta pela sobrevivência simbólica. A dinâmica entre as mulheres é quase cinematográfica — um plano-sequência de tensões que revela o roteiro oculto de uma sociedade em miniatura.
Outra estreia que chama atenção nas bancas é Passione e tragedia. La storia degli ebrei russi, de Riccardo Calimani, publicado pela La Nave di Teseo. Trata-se de um relato extenso sobre vinte séculos de uma comunidade marcada por contrastes profundos: períodos de exclusão política e cultural alternaram-se com chamas intensas de participação revolucionária, muitas vezes destinadas a um desfecho trágico.
Calimani traça a jornada dos primeiros assentamentos judaicos nas terras do Volga até as perseguições e migrações massivas do século XX. Embora frequentemente à margem — entre exclusão e busca de redenção —, os judeus russos contribuíram de forma decisiva para a vida intelectual e social antes do Império Zarista, durante a União Soviética e na Rússia contemporânea. Através da experiência de figuras como Isaak Babel’, Osip Mandel’štam, Vasilij Grossman, Boris Pasternak, Lev Trockij e Abraham Léon, emerge um quadro complexo de identidade coletiva forjada entre criatividade, conflitos religiosos e tragédias coletivas.
O trabalho de Calimani não é apenas uma crônica histórica: é um convite para rever a memória e entender como comunidades inteiras reescrevem a própria existência diante de rupturas. Quando reunimos um clássico reeditado e um ensaio histórico ambicioso, vemos um eco cultural que atravessa gêneros e nos lembra que literatura e história são ferramentas para decifrar o presente.
Esses lançamentos chegam como peças de um roteiro maior — um reframe da realidade que nos convida a olhar além da superfície, a perguntar por que certas histórias são recontadas agora e que espelhos projetam sobre nossa época.






















