Por Chiara Lombardi — Em tempos em que as narrativas oficiais se travestem de muralhas, o livro I nostri cuori invincibili chega como um espelho cortante do nosso tempo. Publicado em italiano pela Ponte alle Grazie e curado pelo jornalista do Le Nouvel Obs Dimitri Krier, o volume reúne cartas trocadas entre duas estudantes — uma em Gaza e outra em Sderot — entre março de 2024 e julho de 2025. O resultado é ao mesmo tempo documento jornalístico e uma espécie de romance distópico escrito em tempo real.
O subtítulo já diz o essencial: “Corrispondenza tra una studentessa di Gaza e una studentessa israeliana”. Mas o que isso revela, além do óbvio geográfico, é um roteiro oculto de vidas que se instalam lado a lado em mapas e, no entanto, em planetas distintos. Tala Albanna e Michelle Amzalak — as vozes por trás das cartas — eram jovens que viviam a apenas doze quilômetros de distância. Hoje, o que separa suas existências é medo, dor e a paisagem de destruição deixada por um conflito que se tornou quase interdito aos olhos da mídia.
As cartas foram obtidas e publicadas por Dimitri Krier, que atuou como intermediário durante a fase mais dramática da crise israelo-palestina. Entre relatos íntimos e informações de primeira mão, o leitor acompanha dois percursos semelhantes e, ao mesmo tempo, radicalmente distintos: Michelle, natural de Sderot, que testemunhou o ataque de 7 de outubro de 2023, ficou oculta em um abrigo por dois dias ouvindo a morte passar ao lado; Tala, de apenas vinte anos, escapou de bombas em queda sobre Gaza e se deslocou para Deir al-Balah, voltando, contudo, a cada fim de semana àquilo que resta da faixa sitiada.
O que surpreende não é apenas a crueza das imagens — mísseis, drones, fome, cadáveres — mas a composição ética do diálogo. As jovens, ambas estudantes de Direito, trocam não só relatos de sobrevivência, mas também esperanças e medos, num processo de aproximação que se funda no respeito mútuo pela dor. Michelle não se rende à justificativa do seu governo; Tala mantém uma abertura sem abdicar da sua dignidade. É um diálogo entre vítimas inocentes, uma tessitura de empatia em um cenário de horror.
Literariamente, o livro adquire contornos de romance distópico: poderia ser trama de McCarthy, mas é documentação recente, ainda em curso, com raízes firmes na História. Esse valor documental, somado ao talento das autoras, transforma a leitura em algo imprescindível — não fácil, mas absolutamente necessário. Ler estas cartas é olhar o roteiro oculto de uma geração que vive a violência como nome diário e que, por meio da escrita, tenta reinventar as possibilidades de vida.
Sobre as autoras: Tala Albanna, 20 anos, cursa Direito na Universidade de Al-Azhar em Gaza, é escritora e ativista dos direitos humanos e trabalha no programa de proteção da infância da ONG Save The Children. Michelle Amzalak, 24 anos, natural de Sderot, também é estudante de Direito; engajada com causas sociais e políticos progressistas, milita pelo fim da guerra.
Como analista cultural, vejo em Nossos Corações Invencíveis mais que um testemunho: um reframe da realidade que nos força a confrontar o eco cultural de um conflito milenar. É leitura para quem busca entender não só o que aconteceu, mas o porquê do sentimento que atravessa duas jovens a pouca distância uma da outra — um espelho do nosso tempo, um convite à escuta humana além das trincheiras.






















