Navrin Turnbull foi oficialmente promovido a Primo Ballerino do Teatro alla Scala, anunciou o Sovrintendente e Diretor Artístico Fortunato Ortombina ao final da apresentação de quinta-feira de La Bella Addormentata nel bosco, na montagem coreográfica de Rudolf Nureyev. A nomeação, proposta pelo Diretor do Balé Frédéric Olivieri, coroou a interpretação do bailarino australiano no papel do Príncipe Désiré, ao lado da Prima Ballerina Alice Mariani, que dançou a Princesa Aurora.
Nascido na Austrália, Navrin Turnbull integra o Corpo di Ballo da Scala desde o outono de 2021, quando ingressou como Solista. Nestes quatro anos de casa — “já me sinto em casa, é a minha família”, disse — ele construiu um repertório que atravessa os cânones clássicos e as vanguardas do século XX e XXI, como um roteiro que revela a versatilidade exigida ao dançarino contemporâneo.
Entre os papéis que destacaram sua trajetória estão os protagonistas em clássicos fundamentais: O Quebra-Nozes e O Lago dos Cisnes na versão de Rudolf Nureyev, a Paquita de Pierre Lacotte, Onegin de John Cranko, Romeo e Giulietta de Kenneth MacMillan e La Dame aux Camélias de John Neumeier. Turnbull também brilhou em obras do cânone do século XX, como Theme and Variations de George Balanchine e Études de Harald Lander, e se lançou com igual propriedade em peças contemporâneas assinadas por Wayne McGregor (LORE), Philippe Kratz (Solitude Sometimes), Andrea Crescenzi (Luce), William Forsythe (Prologue), Alexei Ratmansky (Coppélia) e Edward Clug (Peer Gynt).
Ao receber a notícia, o bailarino descreveu o momento como surpreendente: “Não me esperava, estava totalmente concentrado no espetáculo. Quando vi os mestres chegou o choque.” Em palavras que soam como um pequeno manifesto sobre a vida de palco, ele acrescentou que passa a maior parte do tempo entre ensaios e estudos na casa milanesa e que, apesar da saudade da família em Brisbane — que não vê há quase um ano e meio — o seu futuro por ora está atrelado à Scala.
Como analista cultural, é impossível não ver nessa nomeação mais do que uma vitória pessoal: a ascensão de Navrin Turnbull projeta também o reflexo de uma instituição que busca equilibrar tradição e reinvenção. A coreografia de Nureyev, o papel do Príncipe Désiré e o aplauso do público formam um pequeno espelho do nosso tempo — onde a técnica clássica encontra a necessidade contemporânea de versatilidade e de diálogo com linguagens plurais.
Esta promoção reforça a ideia de que a dança na Europa continua sendo um terreno de trânsito entre memórias históricas e reconfigurações identitárias: o bailarino australiano, à frente de um palco histórico milanês, é uma síntese desse roteiro oculto que define hoje as grandes casas de ópera e balé.

















