Por Chiara Lombardi — Em uma leitura que parece um reframe das memórias públicas, Merlin Holland, neto de Oscar Wilde e autor de After Oscar. The Legacy of a scandal (Europa Editions), resgata um aspecto pouco conhecido do dramaturgo: o seu compromisso com os direitos das mulheres. Em entrevista à revista francesa Point de vue, Merlin revela que o avô foi um feminista convicto e que a defesa das mulheres atravessava sua vida como um fio temático.
Entre cartas e correspondências recentemente examinadas, Holland descobriu que Wilde aceitou o papel de editor-chefe de uma revista feminina nos Estados Unidos, originalmente chamada The Lady’s World. Ele aceitou a condição de que o título fosse alterado para Women’s World — um gesto simbólico mas decisivo: era essencial, para ele, que as mulheres fossem protagonistas e tivessem voz própria.
É um detalhe que reconfigura nossa leitura do autor, tirando-o do estereótipo de figura pintoresca do século XIX e colocando-o como alguém cujas escolhas ecoavam um projeto ético e político. Essa faceta emerge como uma cena inédita do roteiro da vida pública de Wilde — um espelho do nosso tempo que ilumina o quanto o espaço público pode ser moldado por alianças inesperadas.
Merlin Holland também aponta a dimensão trágica do ostracismo a que o avô foi condenado. Embora a família não tenha sentido vergonha pública em relação à homossexualidade e aos anos de prisão, a sociedade vitoriana, descreve ele, era uma máquina de silêncio e exclusão. O pai de Merlin, nascido em 1886, viu Oscar pela última vez aos nove anos. Depois, veio a sequência de julgamentos — dois contra a Coroa e um contra o marques de Queensberry — que transformaram o nome Wilde em tabu nos salões ingleses.
O preço desse ostracismo foi prático e doloroso: a esposa Constance teve de adotar outro sobrenome para proteger-se e proteger os filhos, Cyril e Vyvyan. A chamada “remoção” social, escreve Merlin em seu livro, não se pautou apenas na vergonha pública do escândalo, mas sobretudo nos preconceitos profundos de uma sociedade hipócrita.
Ao retornar da pena, Wilde nunca mais reencontrou a esposa e os filhos. Morreu em relativa miséria e solidão — um fim que, segundo Merlin, poderia ter sido outro se não fosse o efeito corrosivo do isolamento social: “Depois da experiência dolorosa e aterradora na prisão, talvez pudéssemos ter reatado os laços”, registra um diário familiar citado pelo neto. Mas o ostracismo insistiu; Wilde afundou num abismo do qual, conclui Merlin, nunca mais emergiu.
Como analista cultural, vejo nessa narrativa não só a triste trajetória de um gênio pessoal, mas o estudo de um fenômeno coletivo: a sociedade que pune e silencia também apaga possibilidades de reinvenção. A vida de Oscar Wilde funciona como uma espécie de semiótica do viral negativo — um caso em que o julgamento público reescreveu o destino privado. Recontar essa história, com as cartas e os detalhes íntimos agora à luz, é abrir uma janela para compreender como identidades, memórias e políticas de gênero se entrelaçam no roteiro oculto da história.
Merlin Holland oferece, assim, um legado que é ao mesmo tempo biográfico e crítico: a lembrança de um homem que foi articulador de vozes femininas, vítima de uma hipocrisia vitoriana e cuja queda nos diz algo essencial sobre o tempo e suas forças de exclusão.






















