Em uma celebração que mistura memória e presente, o presidente da República, Sergio Mattarella, marcou presença em Nuoro para as comemorações dos 100 anos do Nobel de Literatura concedido a Grazia Deledda. O gesto — mais do que cerimonial — funcionou como um espelho do nosso tempo: uma afirmação de como territórios periféricos moldam o roteiro cultural nacional.
Ao chegar ao Teatro Eliseo, Mattarella foi recebido por estudantes e pelas principais autoridades locais, entre as quais o prefeito Emiliano Fenu, a governadora Alessandra Todde, a prefeita Alessandra Nigro e o presidente da província Giuseppe Ciccolini. No tom de quem observa um cenário com sensibilidade crítica, o presidente destacou o papel insubstituível da Sardenha na vida cultural e social do país: “prima di tornare nel continente, come diciamo noi tutti isolani… non potevo non esprimere con grande calore… l’apprezzamento” — palavras que traduzem reconhecimento e a consciência do valor regional para o conjunto nacional.
Em um trecho mais pessoal do seu discurso, Mattarella contou ter levado, numa recente estadia nas montanhas, dois livros de Grazia Deledda: Il vecchio della montagna e Canne al vento. Ele lembrou tê-los lido quando jovem, e emocionou-se ao afirmar que reencontrou as mesmas impressões e emoções, a confirmação da “perenne modernità” da escritora. Essa referência íntima funciona como um pequeno refrão: a obra de Deledda ressoa além do tempo e continua a oferecer chaves para interpretar o presente.
Ao reconhecer os discursos ouvidos durante o evento — de um escritor, da presidente dos critici letterari, de um docente de filologia e de uma professora de literatura italiana — o presidente preferiu um gesto de humildade intelectual: evitou emitir juízos críticos sobre a obra após ouvir especialistas, dizendo que o faria parecer presunçoso. O que, porém, não deixou de manifestar foi a gratidão de um leitor diante do legado literário de Grazia Deledda.
Mais do que uma cerimônia, a abertura do anno deleddiano em Nuoro foi um momento de reafirmação simbólica: a Sardenha como cenário de narrativas que atravessam fronteiras e épocas. Neste sentido, o evento funcionou como um encontro entre memória pessoal e memória coletiva, entre o afeto de leitor e a responsabilidade institucional de conservar e celebrar o patrimônio cultural.
Como analista cultural, não posso deixar de notar a semiótica do encontro: a presença do chefe de Estado em Nuoro revela o reconhecimento formal de um roteiro cultural que muitas vezes é contado a partir das metrópoles, mas que nasce em territórios que guardam sinais profundos da identidade italiana. É um reframe necessário — uma reescrita para que o mapa cultural do país inclua suas ilhas e suas vozes.
Ao final, a mensagem de Mattarella ficou clara e elegante: a literatura de Grazia Deledda mantém-se viva, moderna e indispensável. Em tempos de inquietude global, lembrar-se das raízes que ajudam a compor a nossa narrativa coletiva é mais do que homenagem; é um gesto de preservação e de aposta no poder transformador da cultura.





















