Por Chiara Lombardi — Em um movimento que mistura mercado de arte e o pulso do imaginário coletivo, a casa de leilões Christie’s anuncia a venda de um dos marcos do pós-guerra do Surrealismo: Les grâces naturelles, de René Magritte. A obra, executada por volta de 1961, entra em leilão em Londres no dia 5 de março, com estimativa entre £6,5 e £9,5 milhões (aprox. €7,6–11,1 milhões), após 25 anos na mesma coleção privada.
Conhecido por cores intensas e pelo motivo do “pássaro-folha”, o quadro é um exemplo maduro da exploração magrittiana da metamorfose e do paradoxo visual. Desde a abertura do Museu Magritte em Bruxelas, em 2009, a pintura tem sido parte do acervo exposto, funcionando como um espelho do tempo e da memória coletiva: a imagem desafia o olhar, sugerindo que a transformação é, ao mesmo tempo, promessa de voo e laço com a terra.
Ao contrário de versões anteriores do mesmo tema, nesta composição os pássaros-folha emergem diante de um compacto conjunto de folhagens azuis, um plano que cria uma sensação de suspensão — quase cinematográfica — onde a narrativa visual se fragmenta. Em primeiro plano, um único pássaro abre as asas, e a pergunta permanece: irá alçar voo ou continuar preso ao chão? É essa ambiguidade, esse reframe da realidade, que faz da pintura não apenas um objeto de mercado, mas um roteiro oculto da sociedade sobre desejo e limitação.
Olivier Camu, vice-presidente de Arte Impressionista e Moderna da Christie’s, ressalta que, nos primeiros anos da década de 1960, Magritte frequentemente retornava a composições anteriores para “explorar novos significados e renovar a força poética”. Essa prática de revisitação — comum a muitos artistas que chegam à sua fase mais reflexiva — transforma o quadro em uma peça de maturidade criativa, onde cada elemento atua como símbolo e sintoma de um tempo.
Antes de chegar à sala de leilões em Londres, Les grâces naturelles será exibido em Hong Kong, de 3 a 6 de fevereiro, e em Londres a partir de 25 de fevereiro. A venda integra a Marquee Week da Christie’s, a semana dedicada à arte do século XX e XXI e ao único leilão internacional focado exclusivamente no Surrealismo, um evento que desde 1989 já registrou resultados notáveis.
Como observadora do zeitgeist cultural, vejo nessa movimentação algo além do preço: é um restabelecimento de diálogo entre o público e uma linguagem visual que continua a nos questionar. A obra de Magritte, tanto quanto um póster do movimento surrealista, é também um convite a revisitar os contornos da realidade — o que, em tempos líquidos, torna-se ainda mais urgente.
Les grâces naturelles promete ser, portanto, mais do que um destaque de catálogo; será um pequeno evento cultural em si, um reencontro entre história, memória e mercado, onde o lance vencedor levará para casa não apenas uma pintura, mas um pedaço do roteiro simbólico do século XX.


















