Giuseppe Cecere, coordenador do Centro Archeologico Italiano junto ao Istituto Italiano di Cultura del Cairo (CAI-IIC), detalhou à imprensa as recentes colaborações italo-egípcias que estão redesenhando nossa leitura do passado do Nilo. Em uma conversa que associa arqueologia e política cultural, Cecere destacou tanto o impacto das grandes inaugurações museais quanto descobertas de campo capazes de reescrever práticas econômicas e alimentares da Antiguidade.
No cenário das grandes narrativas, a inauguração do GEM (Grand Egyptian Museum) ao lado das pirâmides de Gizé representa mais que um novo espaço expositivo: é um gesto simbólico do Egito contemporâneo para afirmar sua centralidade cultural e turística. A ligação por uma passarela pedonal entre as pirâmides e o GEM cria um itinerário que é, em si, um roteiro oculto da sociedade, um percurso que convida o visitante a atravessar camadas cronológicas e simbólicas numa caminhada de quase dois quilômetros.
O tradicional Museo Egizio di Piazza Tahrir, inaugurado em 1902 e ainda chamado de “a mãe de todos os museus” por seu atual diretor, continuou a ser fonte de acervos que alimentaram novos museus regionais e nacionais. Entre essas novas instituições está o Museo Nazionale della Civiltà Egizia (NMEC), inaugurado em 2021 com a célebre procissão das múmias reais — um espetáculo que transformou a arqueologia em performance pública e consolidou o Egito como ator cultural global. Todas essas iniciativas explicam por que a cooperação internacional, inclusive italiana, tem sido central.
No diálogo com Giuseppe Cecere, porém, o foco desloca-se para a arqueologia de campo e para achados que funcionam como pequenos espelhos do quotidiano antigo. Entre as recentes escavações foram identificados verdadeiros laboratórios de época greco-romana, locais de processamento e comércio de produtos marítimos onde se acumulou um conjunto impressionante de restos faunísticos: cerca de 9.700 ossos de peixe. Esse número, bastante concreto, é também um sinal — a semiótica do viral arqueológico — de rotinas alimentares, cadeias de consumo e redes comerciais que conectavam o Mediterrâneo oriental.
Os chamados laboratórios não são apenas espaços de trabalho: são arquivos acústicos do passado. A concentração de ossos demonstra técnicas de salga, preparação e talvez armazenamento de pescado para mercados urbanos e rotas de exportação. Em termos culturais, esses achados reabrem questões sobre hábitos alimentares, hierarquias sociais e a economia marítima que sustentou cidades costeiras e portuárias durante a época greco-romana.
Para Cecere, a colaboração italo-egípcia tem múltiplas camadas: além do suporte técnico e científico, há um compromisso em garantir que essas narrativas entrem no circuito público, museológico e educativo — transformando escavação em mensagem e sítio em palco. Assim, o GEM, o NMEC e os trabalhos de campo operam como um grande reframe da realidade, onde o passado é relido para sustentar identidade e diplomacia cultural.
Enquanto o Egito consolida um espaço expositivo de alcance global, as pequenas grandes descobertas — como os laboratórios greco-romanos com seus milhares de ossos de peixe — nos lembram que a arqueologia é também um exercício de empatia cronológica: ouvir o fragmento, montar o repertório e permitir que o presente se reconheça no eco do passado.






















