L’altro Garibaldi: o herói como agrônomo, empreendedor e guardião de Caprera
Por Chiara Lombardi — Em L’altro Garibaldi. I ‘diari’ di Caprera, o jornalista e escritor Virman Cusenza (Mondadori, 216 páginas, 20 euro) entrega ao leitor um retrato que desmonta o bronze das estátuas e restitui à figura histórica a textura cotidiana da vida. Publicado em 19 de fevereiro, o livro reconstrói, com elegância documental, a face menos vistosa — e talvez mais reveladora — de Giuseppe Garibaldi: o homem do campo, o técnico das estações, o observador climático, o gestor de uma propriedade, enfim, o agronomo de Caprera.
Ao escolher como fonte os pouco frequentados ‘diários agrícolas‘ — um caderno de bordo que parece livro-razão de comerciante ou diário de naturalista — Cusenza propõe um reframe: e se a verdadeira pátria de Garibaldi estivesse, além das praças e dos palcos da História, nas páginas miúdas onde se anotam termômetros, colheitas e tratamentos de vinha?
"Caprera. Qui mi vengono le idee, qui ricevo coloro che mi propongono un’impresa, qui accolgo gli amici, i commilitoni, le donne, i figli: tutti sbarcano su un non luogo, uno spazio senza tempo che li riporta al mio abbraccio"
Esta passagem italiana funciona como um espelho do tempo: Caprera não é retiro, não é ermo melancólico; é centro de gravidade permanente, laboratório, posto avançado. O livro acompanha Garibaldi na ilha aspra e luminosa que ele escolhe a partir de 1856 e onde reside, em alternância, até 1882.
As entradas dos diários têm a frieza dos dados e a intimidade de quem observa o universo em pequenos parágrafos. Um exemplo: 1º de junho de 1864 — quarta-feira — termômetro a 20,5 °C, vento de scirocco, barômetro "semisec" com 29,60 polegadas de mercúrio, higrometro a 68%. Depois, em tom seco: "Zolfatura della vigna Depaoli fu molti giorni prima". Não há ênfase heróica; há a precisão de quem administra uma ilha e a transforma em experimento de futuro.
No mosaico reunido por Cusenza, a enxada convive com a espada. Garibaldi planta 14.000 videiras, importa maquinário de ponta, constrói um moinho moderno e organiza um rebanho de cerca de mil cabeças — uma espécie de outra ‘Spedizione dei Mille’, agora no campo da pecuária e da economia rural. Trata-se de um projeto de modernização agrícola que revela traços de um ecologismo proto-moderno: olhar para o solo, para o clima e para os ventos como elementos decisivos de um plano de vida.
Cusenza, com olhar de cineasta da cultura, reconstrói o dia a dia do herói como se remontasse uma cena-chave: a montagem entre anotações técnicas e afeto familiar. A prosa evita o tom panegírico; opta por uma semiótica do detalhe que abre novas leituras — aquilo que parecia acessório revela-se roteiro oculto da sociedade do século XIX.
O mérito do livro é duplo. Primeiro, desfetichiza o mito e devolve ao leitor um humano polifônico. Segundo, mostra que a história também se faz nas pequenas decisões agrícolas — uma zolfatura, uma importação de semente, a escolha do vento — que, somadas, compõem um programa de vida e de país. Em tempos nos quais repensar nossa relação com o meio ambiente é urgente, ler Garibaldi no papel de gestor rural é encontro providencial entre memória e atualidade.
Para quem gosta de história cultural e de perceber o eco dos feitos na vida privada, L’altro Garibaldi é leitura obrigatória: é a biografia como close-up, um filme em que a câmera foca as mãos do protagonista trabalhando a terra em vez de apenas os estandartes.
















