Por Chiara Lombardi — Um ano após a morte de Jack Vettriano, Roma lhe dedica uma mostra que não quer apenas catalogar uma carreira, mas revelar o roteiro oculto por trás de uma obra que se tornou espelho do gosto popular. Do dia 12 de fevereiro ao 5 de julho de 2026, as salas do Palazzo Velli, em Trastevere, abrigam mais de 80 trabalhos do pintor nascido em Fife, em um recorte pensado para iluminar tanto o imaginário quanto as contradições que marcaram sua trajetória.
O que sempre inquietou Vettriano — e que atravessa a seleção apresentada em Roma — foi o desejo de ser compreendido. Nada nas suas telas deveria ser hermético; antes, a pintura deveria falar a língua de quem, como ele, vinha do mundo do trabalho e conhecia a distância entre a «arte das elites» e o cotidiano das classes populares. Essa sensibilidade faz com que seus quadros funcionem como fotogramas: cenas em meia-luz, casais em contra‑luz, quartos de hotel, salões de baile, clubes exclusivos e praias varridas pelo vento. Imagens em que o antes e o depois são sempre deixados à imaginação do espectador, instaurando um frágil equilíbrio entre romance e inquietação.
A mostra, curada por Francesca Bogliolo e organizada por Pallavicini srl em parceria com Jack Vettriano Publishing, apresenta nove óleos sobre tela, trabalhos sobre papel em tiragem única e um ciclo de fotografias de Francesco Guidicini — retratista oficial do Sunday Times — além de um vídeo em que o próprio Vettriano percorre sua evolução estilística. O percurso expositivo foi concebido para conter tanto o fascínio popular quanto a crítica que, por décadas, olhou para sua obra com desdém académico.
A biografia de Vettriano tem contornos quase romanescos. Nascido Jack Hoggan, numa família ligada à extração do carvão, deixou a escola aos 16 anos e descobriu a pintura de forma autodidata, graças a um estojo de aquarelas que recebeu aos 21 anos de sua então namorada. O primeiro grande desvio de rota aconteceu em 1988, na Royal Scottish Academy, em Edimburgo: duas obras suas foram expostas e vendidas no primeiro dia. A partir daí, a ascensão — e a adoção do sobrenome materno, Vettriano (originalmente Vettraino, com raízes italianas no Frusinate), que se transformou em marca identitária.
No âmago das telas vistas em Roma está uma estética que remete a figuras como Edward Hopper, mas sem reproduzir sua intensidade dramática. Em Vettriano, a luz e a sombra operam não só como recurso atmosférico, mas como metáfora de conflitos íntimos: a pintura torna-se, segundo Bogliolo, uma espécie de confissão autobiográfica, onde o calor do romance convive com uma inquietação permanente. Essa ambivalência explica por que suas imagens são tão familiares — facilmente reproduzidas em casas e escritórios — e, ao mesmo tempo, tão criticadas pelos círculos acadêmicos.
Enquanto a crítica debate legitimidade e hierarquias, o público continua a reconhecer nessas cenas o eco cultural de um tempo: a fascinação pelos filmes noir dos cinemas provinciais, as noites de sexta em busca de distração, a memória coletiva de gestos e silêncios. A mostra em Roma funciona, portanto, como um reframe da realidade — um convite a ler Vettriano não apenas como pintor de «imagens fáceis», mas como um artista que traduziu em estética a urgência de ser compreendido por quem vinha de fora dos salões.
Ver essas obras no Palazzo Velli é, ao mesmo tempo, revisitar um arquivo sentimental da Europa do século XX e observar o lugar da arte popular no debate contemporâneo: um cenário de transformação onde a cultura de massa e a memória individual se encontram para contar histórias que permanecem abertas, à espera do próximo espectador que decida imaginar o antes e o depois.






















